quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Do Lado de Dentro

Parece que hoje é só mais um dia de primavera, nesta cidade que há tantos anos me acolheu como filha. Logo cedo, molhando as violetas da janela da frente, percebi que os dias estão estranhamente iguais, como se eu vivesse uma eterna quarta-feira. Aliás, há tempos me sinto assim, embora não saiba precisar desde quando exatamente... Talvez tenha sido logo que os meninos saíram de casa para experimentar o mundo do qual os protegi, tão cuidadosamente, por trás desses muros com grades brancas. Sabe, quando meu caçula decidiu, com palavras dele, "quebrar a cara por conta própria", desisti das novenas e guardei para sempre a imagem de Santa Rita da qual dependia a minha ilusão de proteção divina. Ao contrário do que possa parecer, não tive a tão sonhada sensação de dever cumprido. Antes, pareceu-me uma jornada interrompida, um parto precoce acompanhado de uma dor metafísica, indizível.
Para preencher o tempo, dediquei-me à reforma da casa, embora minha vontade mais premente fosse vendê-la de portas fechadas. Só hoje vejo que me apeguei à ilusão de que os meninos voltariam, atraídos pela contemporaneidade da área de lazer cuja construção estendeu-se por anos além do planejado.
Eles não voltaram. De passagem, algumas vezes, os arrastei para explicar detalhes da construção, mas os três, em uníssono, insistiram que a reforma descaracterizou a casa, e tornou invisíveis suas lembranças de infância. Doeu-me ouvir isso por me sentir, pela segunda vez, coadjuvante. Antes, do mundo, agora da casa.
Depois dessa triste desilusão, mandei construir um muro, separando a área de lazer. Assim, quem passa na rua, tem a sensação de que a casa se resume à fachada. Escondendo a modernidade, me prendi, por conta própria em um passado aparentemente mais feliz. Minha prisão não é metafórica, como pode parecer. Há anos não frequento e nem olho para aquele lado. Sua manutenção fica por conta de Luzia, que há tantos anos me trás ervas frescas que ela mesma plantou no pequeno espaço de terra que restou em um canteiro, ao lado do muro que divide o passado que não tenho mais do futuro que sonhei.
Com o tempo, detalhes de minha prisão tornaram-se irritantes. Os vidros das jenelas e portas embaçaram, e Luzia já não consegue mais deixá-los translúcidos. Então, todas as imagens que vejo, quando olho para fora, são foscas. Certamente isto contribuiu para que todos os dias se tornassem o mesmo, ao longo dos anos. Os azulejos da varanda me parecem hoje de um retrô cafona, quando contrastados com o amarelo das paredes. E todo esse amarelo, tão pálido, transformou minha vida num álbum de fotos envelhecidas. Até a água que escorre sob o portão quando Luzia está lavando a área de lazer, me causa desconforto, pois dá vida a um futuro sonhado que eu me esforço para esquecer.
No meio desse turbilhão de desagrados, há apenas um pequeno momento em que me sinto novamente protagonista. É quando a desconhecida passa e se espreita entre os arbustos da calçada, ou se esconde na sombra da paineira para me espiar. Ela finge repousar as sacolas no chão, enquanto o suor lhe escorre pelo rosto, mas o descanso me parece artificial, programado. Percebo que ela olha a fachada da casa, percorre as janelas e a varanda, para me encontrar em algum cômodo... e inventar lindas histórias a meu respeito, para alimentar sua imaginação jovem.
Há dez anos, toda quarta-feira, dispenso meus pijamas de malha e me cubro com meu xale cinza, presente de vovó para mamãe, que herdei ao completar sessenta. Prendo os cabelos com uma presilha velha, que encontrei entre as coisas de vovó, logo que ela morreu, e enceno um ar sóbrio e sereno que nunca busquei. Após alguns anos brincando com a estranha de gato e rato, decidi transformar em história essa passante desconhecida, e dedico boas horas dos meus dias iguais a descrevê-la e descobri-la, como ela parece fazer comigo, em seu íntimo. Para agilizar meu trabalho literário, aposentei meu velho diário de capa de couro e comprei um computador, que para mim nada mais é do que uma máquina de escrever que permite correções.
E assim, todos os dias, que continuam iguais, passei a vestir o xale e prender os cabelos para recriar a passante desconhecida que tranformou algumas de minhas quartas-feiras em sábados de espetáculo. Mantenho, no entanto, uma tradição de meu velho diário: escrever o local, a data, e assinar com meu primeiro nome ao final de cada página.
Cecília
S. C., 18 de agosto de 2010