quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Quando o Sol Nascer...

... Na jenela do seu quarto... Lembram dessa música?
Quem diria, que tantos anos depois este seria o hino de tantos brasileiros!
Como assídua observadora do cotidiano, eu não poderia deixar de comentar os acontecimentos recentes na região serrana do Rio de Janeiro.
Como sentimental assumida, eu não poderia deixar de dizer: triste, muito triste!
Há dias tenho acompanhado essa tragédia, e vejo uma sucessão de imagens tristes, tão devastadoras quanto a força das águas. E tanto sofrimento, daquele mais primal do ser humano: a falta de abrigo, de calor, de alimento, de família.
Mas, como boa leitora das entrelinhas da vida, uma imagem me impressionou em particular. Permitam-me descrever.
Eu estava já há alguns dias ouvindo os depoimentos dos flagelados, assistindo a imagens inimagináveis, vendo a todo momento rios inesperados invadirem, sem aviso, a realidade. Acho que até já tinha visto, em um desses telejornais, que a casa onde Tom Jobim compôs "Águas de Março" havia sido destruída, em questão de segundos, pela tragédia anunciada das águas de janeiro. Enfim... parecia que nada mais, no meio do mar de lama, sangue e vidas, iria me surpreender.
Eu estava errada. Entre a salada e o peixinho grelhado da minha hora de almoço, vi na tela da tv uma criança, menina, de sete anos de idade. Os olhos brilhantes e um meio sorriso nos lábios, creio eu, por estar aparecendo na TV. E uma repórter afoita, eu diria quase inconveniente, a entrevistando. Na verdade, não vi a repórter; só um microfone muito grande ocultando os lábios da menina, mas deixando seus olhinhos brilhantes a mostra.
Não me lembro muito bem o que a repórter - desde o começo mera coadjuvante para mim - perguntou ou anunciou no começo da reportagem. Vagamente me lembro que a chamada do jornal dizia que o conselho tutelar do Estado do Rio de Janeiro estava "recolhendo" (esta foi a palavra usada) as crianças cujos pais se recusavam a sair das áreas de risco. Essas crianças estavam sendo levadas a abrigos das prefeituras. Imagino que deviam ser centenas de crianças nessa situação. Mas essa menininha de sete anos, olhos brilhantes e meio sorriso nos lábios me chamou a atenção.
Enfim, para encurtar a história e explicar para vocês o meu espanto, lembro-me que a repórter perguntou algo mais ou menos como : "o que você está fazendo aqui?". E a menina, meio que em tom de jogral ensaiado, ao lado do irmão mais novo por quem seguramente ela estava se sentindo responsável, respondeu: "a minha casa está em um lugar que tem alto risco de desmoronamento, as paredes estão rachadas, e vários vizinhos já saíram de casa. Então as 'tias' vieram e tiraram eu e meu irmãozinho de lá, pra gente não morrer soterrado, porque meus pais não quiseram abondar a nossa casa".
Olha, eu nem sei se aquela menina tem noção do que ela estava falando. É muito comum crianças repetirem o discurso dos adultos sem saber, necessariamente, o que significa. O meio sorriso e o olhar esperto que ela demonstrava, delatavam, ao meu ver, apenas ingenuidade e uma plena inconsciência do que ainda está por vir.
Eu não quero entrar num julgamento retórico de valores, muito menos questionar as razões e os porquês de pessoas que, instantaneamente, como num passe de mágica, se viram privadas até do direito de decidir, de pensar, de questionar (como deve ter acontecido com os pais da menininha).
Só fico pensando, cá com os meus botões, quantas centenas de crianças, numa tragédia como a do Rio, amadureceram sem aviso prévio, sem anúncio, sem cautela, e principalmente sem proteção. Quantas delas perderam o brilho dos olhos, a esperança... e quantas, daqui a alguns anos, vão desejar nunca ter sido destaque no "noticiário"... apenas ter tido uma infância absolutamente comum, sem sustos, glórias ou sobressaltos.
Desde sempre os "filhos da tragédia" (seja ela seca, enchente, violência urbana ou familiar) no final das contas só queriam ser FILHOS. Nada mais.

A todas a famílias que estão sofrendo com as consequências das enchentes no Rio, e a todas as outras famílias, que cotidianamente, sofrem com as mazelas urbanas de nosso país, Meus sinceros e absolutos sentimentos. Neste exato momento, para homenageá-los, eu não seria capaz de algo originalmente genial.Permitam-me então, plagiar alguém que sabia muito bem o que fazer com as palavras: "quando o sol bater na jenala do seu quarto, lembra e vê que o caminho é o sol".
Enfim, desejo a todas as famílias e crianças das regiões atingidas pelas chuvas (isso inclui Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) que o sol bata, o quanto antes, nas janelas de suas casas. E ilumine, e abra caminhos, e componha poesias, e inspire novas canções! Desejo, para vocês, o Sol!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Saudades

Uma vez me disseram que a palavra "saudade" só existe na língua portuguesa. E eu acreditei. E acredito até hoje... me desculpem os mais cultos e letrados. Na verdade, tudo que eu ouvi falar sobre isso só confirmou a versão, para mim, original. Segundo se fala por aí, nehuma outra palavra ou expressão, em qualquer outra língua viva, equivale plenamente à nossa tão conhecida "saudade".
Como boa brasileira, interiorana, de sangue mestiço, e de muito boa vontade, aprendi desde cedo que "sentir saudade" é muito mais do que sentir falta de alguém (tipo "I miss you" do inglês) ou de algum lugar onde estão as raízes (tipo o "banzo" dos escravos africanos no Brasil). Saudade é algo que todos, sem exceção, em algum momento da vida sentimos mas que, provavelmente, pouquíssimos de nós saberiam explicar.Eu mesma não saberia.
Eu, como boa apreciadora das palavras, posso dizer de minha parte, e sem grandes devaneios teóricos, que saudade vai e vem, como o mar. Às vezes tenho saudades da infância, como quem assiste a um filme em preto em branco. Às vezes tenho saudades dos que já se foram, como quem repete incessantemente uma linda oração. Às vezes até tenho saudades do que eu ainda não vivi... estranho isso, né?
Mas posso ser bem egoísta, e falar única e exclusivamente de uma saudade pontual, específica, bem delimitada que andava me perturbando ultimamente? Acreditem se quiserem, meus queridos leitores: eu estava morrendo de saudades de escrever para vocês. Tá, tudo bem, pode parecer piegas... mas corro esse risco com satisfação.E quem me acompanha no blog e no dia-a-dia, sabe que é de coração! Nossa, isso foi ainda mais piegas, né?
Bom, vamos lá. Chega de justificar... Estou com saudades meeeesmo!!!!!
Em algum "post" anterior eu já tinha falado que não conseguia entender como havia ficado tanto tempo sem escrever, se justamente escrevendo eu me entendo e me reinvento... lembro bem disso! Lembro também que naquela ocasião eu tinha meio que "tirado férias de mim mesma", tipo assim "tô sem inspiração, sem ideias legais, sem nada de interessante pra dizer"... bobagem! Bobagem total!
Desta vez as férias foram compulsórias! Nestes intermináveis dias que não postei nada de novo (por forças absolutamente tácitas, cotidianas, mundanas) tantas coisas aconteceram! E antes de dormir,por todos esses dias, ensaiei crônicas elaboradíssimas e muito divertidas . Contos? Pelo menos uns quatro, daqueles que misturam humor e emoção e que agora, que volto à cena, não consigo me lembrar...
Mais uma vez, não pretendo me justificar, mas peço licença para me explicar (de novo) se me permitem. As férias foram compulsórias porque um turbilhão de "dia-a-dia" me atropelou, de dezembro pra cá. Mudança de casa, Natal, Revéillon, fim de Doutorado. E com tudo isso, reavaliações de planos, objetivos e sonhos. E depois de tudo isso, alguns quilos e reais a menos, muitos suspiros de lembranças e sorrisos do por vir, sempre tão bem vindos, e nenhuma, nem uma única linha... Pela primeira vez, a saudade virou angústia.
E com tudo isso que aconteceu, e que eu não pude evitar nem compartilhar com vocês (até agora, prometo), descobri um novo sentido para a palavra saudade. Descobri que posso ter saudade de um lugar, ou de uma época. Certamente, de pessoas e de momentos. Mas, definitavamente, descobri que não posso ter saudades de mim mesma. Confuso? Novamente explico: Nesses intermináveis dias que não pude compartilhar meus pensamentos e minhas (amadas) palavras aqui, descobri que todas as outras "saudades" só são possíveis e saudáveis se, de tempos em tempos, eu me reinventar, me reescrever, me reexplicar. E isso, basicamente, é o que eu faço aqui, no Cotidiano Open Bar.
Essa eu faço questão de assinar, lírica e pessoalmente: Beijos a Todos,
Lira Pessoa!