terça-feira, 24 de novembro de 2009

Treinamento e delicadeza

Dia desses, em uma videolocadora, presenciei o seguinte diálogo:
Cliente: Bom dia. Me recomendaram um filme, acho que é uma comédia. É sobre casamento, mas não sei bem de quando é. Gostaria de tentar encontrar o filme e saber se está disponível. Ah, o personagem principal é interpretado pelo Dustin Hoffman.
Atendente: É aquele velho de cabeça branca?
Elegantemente, mas um tanto perplexa diante da pergunta formulada sem o mínimo de cuidado (quase grosseira, eu diria), a cliente respondeu: bom, não sei bem se o Dustin Hoffman está grisalho nesse filme.
Surpresa com a falta de preparo da atendente, a primeira coisa que me veio à mente é quanta falta faz um bom treinamento! É verdade, um bom treinamento talvez tivesse evitado situação tão sutilmente constrangedora. Mas, pensando bem, um bom treinamento teria sido suficiente?
Penso que algumas coisas não se ensinam em um programa de treinamento técnico, ou mesmo interpessoal. Delicadeza, bom senso, cuidado com as palavras, respeito. Tudo isso pode sim ser ensinado, mas muito mais pelo exemplo do que pela instrução. Com apenas uma dessas qualidades (qualquer uma delas), a atendente não teria se referido a um dos maiores atores norte-americanos vivos da forma como o fez. Poderia não ter recebido treinamento, mas por formação pessoal nunca se referiria a ninguém – muito menos ao Dustin Hoffman – como “o velho de cabeça branca”.
Ao contrário do que pode parecer, não estou fazendo apologia ao “politicamente correto”. Até porque o que se determina como “correto” muda de tempos em tempos. Já as qualidades que citei há pouco são perenes. Permeiam nosso cotidiano e são bem-vindas em qualquer ambiente, a qualquer tempo.
Infelizmente, episódios como o que relatei, da videolocadora, me levam a pensar que delicadeza, bom senso, cuidado com as palavras e respeito são atributos que estão se tornando cada dia mais escassos. Às vezes, as pessoas até se espantam quando alguém age com mais delicadeza, por exemplo. Não raro, demonstrar respeito é visto como bajulação; agir com bom senso e lapidar o discurso interpretados como soberba! Que mundo é esse?
Há luz no fim do túnel? Eu diria que na falta do aprendizado cotidiano de características tão potencialmente naturais do ser humano, um bom treinamento (elaborado com bom senso) pode sem dúvida ajudar. Mas, intimamente espero, antes de mais nada, que a atendente tenha aprendido com a cliente, naquele momento aparentemente desimportante e corriqueiro, a lição com que ela (a cliente), inadvertida e elegantemente, a presenteou: um banho de delicadeza!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Uma "rapidinha" sobre o futebol

Definitivamente, eu não entendo muito de futebol. Além do básico, sei o que é impedimento, esquema tático e sei dizer muito bem quando um time está jogando bem ou mal, esteja ele ganhando ou perdendo. Estou quase entendendo a diferença entre um ala e um volante e continuo achando que as decisões dos TJD's são, no mínimo, enigmáticas.
Sobre a cartolagem, gatos e maracutaias, prefiro nem comentar!
Aprendi com o tempo que quem perde quase sempre acha que o árbitro roubou, foi incompetente ou, no mínimo, o resultado não foi justo. Isso me faz pensar que saber perder é uma arte, e que não depende só do "espírito esportivo", mas principalmente do respeito à felicidade alheia.
Mas é interessante como algumas coisas sobre o futebol ninguém precisa explicar. A gente sente e identifica como se já tivesse nascido sabendo.
Inexplicável a sensação de um gol salvador no finalzinho do segundo tempo, ou quando o nosso goleiro defende um "gol feito". E quando a gente perde um "gol feito", então... UUUUUUUUHHHHHHHHHHHH (o estádio em uníssono).
Inesquecível ter assistido, no estádio, a um Brasil X Argentina, num pré-olímpico, e todos gritarem "Brasil, Brasil, Brasil" quando a Argentina fez o primeiro gol. Arrepiei como em poucos momentos da minha vida. Só pra constar, o Brasil ganhou de virada (que é sempre mais gostoso) por 3 a 1.
Muito triste, mas tão inesquecivel quanto, ver meu time ser rebaixado após uma campanha medíocre e milhões de denúncias de lavagem de dinheiro e transações ilegais!
Mas prefiro as boas recordações! Lembro do Dr. Sócrates, gênio, comandando a democracia Corinthiana. E do Ronaldo, gênio, dando a volta por cima e comandando a volta por cima do Corinthians, recentemente!
Lembro da esperança que tive de ver meu sobrinho (não de sangue, mas de coração) torcendo pelo Corinthians quando meu irmão o encheu de presentes do Timão! Ele ficou lindinho com uniforme completo, bola e meias do meu time. Mas, mais uma dessas coisas inexplicáveis do futebol... ele é santista, filho de pai palmeirense e de avô e tios corinthianos.
É mais ou menos assim... a gente torce, se apaixona, sente raiva, se revolta... alegria, explosão, e às vezes até marasmo...
Quer saber, sempre vou tentar entender melhor sobre futebol. Mas o entendimento nunca vai superar aquilo que nem os "experts" conseguem explicar: a emoção de ver seu time campeão. Torcer não é argumentar, ter razão, ganhar sempre. Torcer é, antes de mais nada, um estado de espírito.

Prazer em conhecê-los

Tenho uma pasta no computador que, por uma associação livre meio burra, nomeei de “bobagens”. Não, não são vídeos engraçados e sádicos da internet, nem receitas de doces que eu nunca cozinhei, nem aquelas fotos que eu não queria tirar mas alguém insistiu. São listas de convidados de festinhas realizadas anos atrás, cartinhas carinhosas para amigas em dias difíceis, e pensamentos soltos, alinhavados com dois pontos, reticências, exclamações e uma boa dose de humor despretensioso.
É atrás desses pensamentos que eu estava hoje, após o inesperado e muito bem-vindo convite para passear por essa coluna mensalmente. Como não visitava as tais “bobagens” há muito tempo, não me lembrava claramente de seu conteúdo. Achei que havia ali mais pensamentos e menos listinhas de festas, mais humor, pontos de exclamação, e menos declarações de amor- algo melancólicas - às entrelinhas do cotidiano.
Relendo essas preciosidades da minha memória eletrônica, me surpreendi com pequenos detalhes, há muito reservados ao que costumamos chamar de “tempo passado”: as listas de convidados foram diminuindo de tamanho com o passar dos anos; as cartinhas para as amigas foram se tornando menos poéticas, mais práticas e às vezes até engraçadas; e os tais pensamentos soltos se enredaram sorrateiramente, e à minha revelia, em histórias divertidas e surreais do dia-a-dia.
É neste ponto que você me encontra, querido leitor! Como disse, vou passear por aqui mensalmente, sem grandes pretensões. Meu único objetivo é pensar, repensar e digerir calmamente o cotidiano de pessoas comuns como eu, você e todas aquelas das minhas listas de convidados, que com essa pequena faixa no jornal, tende a crescer. Você é meu convidado especial - e nesse sentido nada comum - para mergulhar nas entrelinhas do cotidiano. Mas, se me permite um pedido, faça isso da mesma forma como lhe escrevo: sem pressa, tomando um café na padaria, no intervalo da viagem, na ciesta de domingo. Vamos olhar para a cidade do alto e enxergar através dos muros e paredes. Vamos fechar os olhos por um momento para enxergar o tilintar dos talheres, o brinde alegre no barzinho da esquina, a gota de suor na testa da menina, o balançar de pés na sala de espera, o ruído da caneta desfilando no papel em branco!
Depois do pedido, um aviso. Me apresentam como psicóloga, mestre em filosofia e doutoranda nesta mesma área. Não se assuste, como o fazem, geralmente, meus novos amigos. O conhecimento técnico, quero eu, será tão somente o pano de fundo (ou a cortina) para as reflexões do cotidiano. Quero só contar histórias, continuar alinhavando pensamentos, lendo entrelinhas e me divertindo muito junto com você, nesta festa sem lista de convidados na portaria. E para ditar o tom daqui pra frente, preparem-se, a festa é open bar!