quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Feliz Aniversário

Conheço algumas (várias) pessoas que não gostam de fazer aniversário. Até aí, normal. Vamos combinar: envelhecer não é a coisa mais agradável do mundo. Os anos vão passando e paulatinamente algumas partes do corpo passam a não responder e, pior, a não obedecer mais aos nossos comandos. Temos sono em momentos que gostaríamos de estar absolutamente “ligados”, as dores vão surgindo e se incorporando ao dia-a-dia. Cada vez mais temos histórias do passado, de um passado beeeeem remoto, de vinte, trinta anos atrás. E, o pior, a maior preocupação da segunda-feira não é tão somente a prova de matemática, com as temidas “operações de segundo grau”, mas a inquietação de todo um futuro que, apesar de mais curto, tornou-se, ano a ano, mais pesado.
Mas, tirando essas coisas absolutamente racionais, é muito bom fazer aniversário. Talvez nem tanto para o aniversariante, mas certamente para aqueles que o amam. Quando somos convidados a compartilhar com alguém, anualmente, do dia mais individual do seu ano, não só nos sentimos privilegiados (pela consideração) como nos sentimos parte da história do tal fulano aniversariante. Celebramos juntos essa incrível idiossincrasia da natureza que faz com que cada um seja absolutamente único, e que tenha, entre tapinhas no bumbum e cortes de cordões umbilicais, começado a escrever sua história, recheada de trilhas sonoras e imagens em branco e preto, estáticas e em movimento.
Agora, mergulhando de vez no emocional e “egoísta”, todo mundo adora holofotes. E o dia do seu aniversário é o dia em que todos os holofotes que você conhece estão direcionados ao seu olhar, ao seu sorriso, ao seu suspiro, às suas vontades. Ai, que delícia!
Para incorrer em um chavão, “os aniversários servem para celebrar a vida”. Para sair do lugar comum e colorir com algodão doce essa história toda, aniversário é aquele momento em que você é a estrela d’alva, a pérola viva, a estrela do mar... O seu aniversário é o momento em que a platéia aplaude, em pé, tudo o que você é. E você, solene e garboso, abre os braços, inclina a cabeça e orgulhoso diz: Muito, muito obrigado!
Dedico aos meus queridíssimos amigos, aniversariantes de janeiro: Adriano e Karen. E especialmente ao meu amor de todos os meses, e de todos esses anos, Barba.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Inspiração (crônica incidental)

Cada vez mais admiro aqueles compositores que dizem em entrevistas que compõem todos dias de manhã, depois de levar os filhos à escola ou de caminhar na esteira por quarenta minutos. Sei que não é regra, que boa parte dos compositores e escritores brasileiros esculpiram suas obras de arte em momentos inusitados: na penumbra do boteco, cercados por garçons impacientes e cadeiras suspensas sobre as mesas; assistindo ao pôr do sol numa praia paradisíaca, acompanhados da dor lacerante do amor perdido. Certamente ambientes inspiradores!
Só agora, me aventurando no mundo das palavras é que parei para pensar sobre isso: afinal, de onde vem a inspiração? Como alcançar esse sopro de luz que oxigena as palavras e as transforma, de um emaranhado indissociável de letras, em uma mensagem que transcende os limites do papel (ou da tela) e invade o universo particular do leitor?
Escrever é apoderar-se das palavras, lapidá-las, refiná-las? É reorganizar ideias soltas numa trama tecida pela técnica? É ressignificar frases numa tentativa de tornar dizível o pensamento? E para meu desespero, essas perguntas me vêm num momento de absoluta ausência de inspiração, daquela força espectral que magicamente ordena os pensamentos e os transforma em borboletas, ou em bolhas de sabão. E agora?
Agora me resta manter as interrogações. Expor entre parênteses meu processo tão particular e inusitado de brincar com o léxico e a realidade, de misturar técnica e mística, de fazer de minha escrita minha história lírica e pessoal.
(no começo é só uma palavra, quando não um sentimento sem nome. Se der sorte, é uma situação completa, com começo meio e fim. O que é constante é a inquietação palpitante, insone, que invade, abrupta e incessante, tudo o que diz respeito a mim. Infiltra, profundo, mas não tarde reverbera, explode. Nesse momento sou só palpitações, sons, busca, um transe consciente e eufórico, quase ensurdecedor. Até que elas chegam, as palavras! Inicialmente saltitantes e tão eufóricas quanto eu. Confundindo meus olhos e entrecortando minha respiração. E enfim me dominam, me acalmam, me reorganizam. E só então emerge escrito, placidamente, como se fosse absolutamente natural e fluido, o pedaço de mundo que me elegeu. E que me transformou novamente em palavras, pontos, vírgulas, e eternas interrogações)