Cada vez mais admiro aqueles compositores que dizem em entrevistas que compõem todos dias de manhã, depois de levar os filhos à escola ou de caminhar na esteira por quarenta minutos. Sei que não é regra, que boa parte dos compositores e escritores brasileiros esculpiram suas obras de arte em momentos inusitados: na penumbra do boteco, cercados por garçons impacientes e cadeiras suspensas sobre as mesas; assistindo ao pôr do sol numa praia paradisíaca, acompanhados da dor lacerante do amor perdido. Certamente ambientes inspiradores!
Só agora, me aventurando no mundo das palavras é que parei para pensar sobre isso: afinal, de onde vem a inspiração? Como alcançar esse sopro de luz que oxigena as palavras e as transforma, de um emaranhado indissociável de letras, em uma mensagem que transcende os limites do papel (ou da tela) e invade o universo particular do leitor?
Escrever é apoderar-se das palavras, lapidá-las, refiná-las? É reorganizar ideias soltas numa trama tecida pela técnica? É ressignificar frases numa tentativa de tornar dizível o pensamento? E para meu desespero, essas perguntas me vêm num momento de absoluta ausência de inspiração, daquela força espectral que magicamente ordena os pensamentos e os transforma em borboletas, ou em bolhas de sabão. E agora?
Agora me resta manter as interrogações. Expor entre parênteses meu processo tão particular e inusitado de brincar com o léxico e a realidade, de misturar técnica e mística, de fazer de minha escrita minha história lírica e pessoal.
(no começo é só uma palavra, quando não um sentimento sem nome. Se der sorte, é uma situação completa, com começo meio e fim. O que é constante é a inquietação palpitante, insone, que invade, abrupta e incessante, tudo o que diz respeito a mim. Infiltra, profundo, mas não tarde reverbera, explode. Nesse momento sou só palpitações, sons, busca, um transe consciente e eufórico, quase ensurdecedor. Até que elas chegam, as palavras! Inicialmente saltitantes e tão eufóricas quanto eu. Confundindo meus olhos e entrecortando minha respiração. E enfim me dominam, me acalmam, me reorganizam. E só então emerge escrito, placidamente, como se fosse absolutamente natural e fluido, o pedaço de mundo que me elegeu. E que me transformou novamente em palavras, pontos, vírgulas, e eternas interrogações)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
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Poesia na prosa!
ResponderExcluirE isso é porque vc tava sem inspiração! bjs
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