O mês de dezembro no Paraná era extremamente agradável. Fazia calor, como em todo o Brasil, mas à noite batia uma brisa gostosa e muitos vagalumes iluminavam a cerca viva que separava nosso quintal do dos vizinhos de trás. Era como uma ornamentação natalina natural, e o horário de verão nos permitia ficar brincando na grama, ao lado do viveiro dos coelhos, até que ela se acendesse por completo. E o mais legal era que as luzinhas não ficavam paradas, movimentavam-se como num balé frenético, ao som dos gritos de gol dos meninos e das cigarras que moravam nas duas árvores que serviam como traves para a brincadeira.
Nossa cozinha era grande, de piso encerado vermelho, e a pia ficava logo abaixo da janela que dava para os fundos da casa, onde ficavam a área de serviço e um quartinho de entulhos, atrás da garagem. Da janela da cozinha dava para ver o tanque, onde dona Rosalina, duas vezes por semana, separava cuidadosamente a roupa branca e esfregava, com seus dedinhos tortos, meia por meia, sobre os baldes cheios de sabão e anil.
Pois bem, é por ali que eu imaginava que o Papai Noel iria chegar, já que a casa não tinha lareira nem chaminé. Como quase todas as casas do quarteirão se comunicavam pelos fundos através de muros baixos, minha ingênua e divertida cabecinha de criança imaginava que seria mais fácil para Ele estacionar o trenó bem no centro do quarteirão, e a partir dali distribuir os presentes para cada uma das crianças. Pois bem, estrategicamente então, era na janela sobre a pia da cozinha que eu colocava meus sapatinhos, com os pedidos de Natal.
Bom, acho que “sapatinhos” não é bem o termo, pensando bem. Até meus oito anos de idade usei botas ortopédicas que em nada se assemelham às lindas sandalinhas coloridas com palmilhas corretivas que se veem hoje em dia. Pareciam botas militares em miniatura. Mas, enfim, o que importa é que eu as colocava lá. Todos os quatro pares: duas pretas, uma marrom e uma branca. E dentro de uma delas, geralmente o pé direito do par de botas brancas, eu colocava o meu pedido de Natal.
Muito tarde da noite, lá pelas nove, vencida pelo sono e pela frustração de não ter visto o Bom Velhinho, eu ia para a minha cama. Não sem antes jurar, no alto da maturidade da primeira infância, que eu acordaria assim que ouvisse os sininhos das renas, para agradecer pessoalmente a gentileza de um senhor tão distinto e ocupado em vir me trazer minha tão esperada boneca. Até os cinco anos de idade eu nunca acordei no meio da noite. Acordava bem cedinho no dia seguinte e lá estava, embaixo da cama, o embrulho com motivos natalinos e fita vermelha num laçarote múltiplo. Era como um milagre! E eu ficava imaginando como aquele senhor gordinho conseguia entrar pela janela, pular a pia da cozinha e passar pelo longo corredor de tábuas de madeira sem fazer barulho nenhum. Era mesmo muito especial esse Senhor Noel!
Até que chegaram meus seis anos (e meio) de idade. O ritual foi o mesmo, e lembro-me claramente que naquele ano eu havia pedido um presente inusitado: uma bola. Estava orgulhosíssima por ter, pela primeira vez, escrito de próprio punho, o elaborado bilhete: “Papai Noel, eu queria muito uma bola, de plástico, grande e colorida. Obrigada.” Como eu já estava mais madura, afinal no ano seguinte ingressaria na primeira série do primário (era assim que se chamava na época), acho que naquela noite consegui ficar acordada até umas dez, dez e meia. Um recorde. Mas ainda assim não realizei meu sonho de agradecer ao Papai Noel pessoalmente pelo presente e enchê-lo de perguntas sobre sua fábrica no pólo Norte. Sim, porque a cada ano que passava meu diálogo imaginário com o Senhor da Barba Branca tornava-se mais eloqüente e cheio de porquês.
Mas, mais uma vez, não venci o cansaço do fardo de ser criança e ter que brincar o dia inteiro, correndo prá lá e prá cá, entre o futebol as bonecas e o esconde-esconde, e fui dormir. Acalentando a esperança, como sempre, de acordar no meio da noite e dar o flagra no tal Velhinho! Será que eu iria conseguir? Até hoje não sei se foi um sonho, mas aquela noite me reservava algo de muito, muito especial.
O sono pesado, recheado de sonhos pueris, deu lugar naquela noite de dezembro a um cochilar leve, em que se misturavam pensamentos e sons vindos da conversa animada dos adultos, lá na sala, que ficava entre a cozinha e o longo corredor dos quartos. Acho que sonhei algumas coisas, já quando o burburinho havia cessado. Mas sonhos curtos, sem sentido, entrecortados com resquícios daquele dia de botas ortopédicas na janela e vagalumes na cerca viva. Até hoje, acho que foi a partir desse dia que meu sono se tornou leve para sempre.
Foi no meio desse primeiro sono de pluma que ouvi os passos no corredor de madeira. Aliás, não ouvi os passos, mas o ranger intermitente das madeiras, corrigido com a troca de percurso do meu visitante noturno. Ele não queria fazer barulho. Logo em seguida, o trinco, e a porta se abrindo deixando entrar no quarto um tanto confortável de luz. Inebriada pelo sono mal consegui abrir os olhos, mas vi (ou sonhei) claramente, o vulto com o embrulho na mão, e listras azuis e brancas. O vulto, as listras, o laço vermelho, a luz, tudo se confundiu e voltou a ser sono, e sonho. Lembro-me bem da sensação de dormir quase sorrindo. Ele veio!
De manhã, quando já podia distinguir sonho de realidade, abri os olhos e sem me mexer pude ver, ao lado da cama, o embrulho com papel de presente e laçarote vermelho. Lá estava minha bola de plástico colorida. E tão grande que não coubera embaixo da cama. Aos poucos, as lembranças da noite anterior vieram surgindo. Meu coração acelerou, ainda com as idéias e sequência dos fatos desorganizadas. Laçarote vermelho, listras azuis e brancas, vagalumes, a luz entrando pela porta... o vulto!
Foram os cinco minutos mais longos e complexos que eu vivera até então. Com as pernas cruzadas e ainda admirando o colorido da bola de plástico, meus pensamentos se organizaram e achei tudo muito esquisito. Sim, ele entrou devagar. O vermelho era do laço do presente. Não, não era tão velho. Nem tão gordo. Barba? Bigode talvez... e aquela figura foi se tornando cada vez mais familiar. Azul... branco... listras. Arregalei os olhos e parei de respirar por dois segundinhos, intermináveis por sinal. Não havia outra coisa a fazer, se não sair correndo dali imediatamente e buscar abrigo no lugar mais seguro que já inventaram. O lugar onde os sonhos infantis são eternos e onde ninguém ousaria destruir meus castelos de areia: Mããããããããããããeee!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Atravessei o longo corredor de madeira tão rápido que parecia ter dado dois passos quando cheguei, ofegante, à cozinha. Serena, com uma xícara de café a caminho da boca, minha mãe me olhou de canto de olho, repousou a xícara sobre o pires, e calada me ouviu afirmar, perplexa: O Papai Noel usa pijama listrado, azul e branco. E ele não é velho, nem gordo, e nem tem uma barba imensa e branca. Com um início de sorriso no canto dos lábios, minha mãe me trouxe de volta à realidade, e eu olhei em ao meu redor. A cozinha estava bem clara, a chaleira de leite apitando e tinha cheiro de café no ar. Então percebi que não estávamos sozinhas. Ele estava lá, ainda com o mesmo pijama, às gargalhadas, sentado ao lado de minha mãe. Ria tanto, que mal conseguia segurar a xícara. Era ele: o meu Papai Noel!
Naquele momento, parada na porta da cozinha, sem que ninguém me explicasse, entendi absolutamente tudo. Ao contrário do que possa parecer, não fiquei decepcionada. Confesso que senti um certo alívio. Durante todos aqueles anos me assombrava a idéia de o Papai Noel estar ocupado demais e não poder entregar o meu presente. Afinal, até onde eu sabia, ele entregava primeiro para as crianças pobres, depois para as que não tinham feito nada de errado durante o ano e só depois para crianças como eu.
Sentei no meu lugar à mesa, meio envergonhada por ter acreditado no Sr. Nicolau por tanto tempo. Ouvi minha mãe explicar coisas sobre o Espírito de Natal, e sobre um menino pobrezinho que nasceu entre ovelhas e outros bichos, há muitos anos, numa época em que não existia nenhum tipo de Papai Noel. Nem os de pijama listrado.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
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Hoje foi vc quem me fez chorar...
ResponderExcluirBjs querida e tenha um bom dia.
Quando vi o tamanho do texto eu dei uma desanimada para ler, mas quando começei so consegui parar em "Nem os de pijama listrado."
ResponderExcluirtá ótimo! mto legal!!
Lindas as suas reminiscências, o jeito como você viu "Papai Noel" em sua infância e dele se encantou. " O que se vive na infância torna-se inesquecível..."
ResponderExcluirLindo!
ResponderExcluirMuito lindo... parecia que eu estava lendo um daqueles livros que temos que ler a noite toda de tanta vontade que temos de saber o final... muito bom! Bjosss
ResponderExcluirMariangela