Quando menina, ela gostava de pisar em folhas secas, pular amarelinha e sonhar com uma rosa na janela, colhida no quintal do vizinho e depositada ali, no meio da noite, como uma declaração de amor. Se encolhia com medo quando a avó, tão carinhosa, entoava “boi boi boi, boi da cara preta...” e gostava do friozinho na barriga que sentia quando a beata pedia que desse voz ao folheto da missa; trinta segundos intermináveis mas sempre seguidos do abraço da avó e do olhar orgulhoso do avô. Ela se irritava com facilidade, embora não fosse exatamente uma menina brava, daquelas que brigavam com os meninos no recreio e tinham machucados nos joelhos, estancados com a terra do campo de futebol. Só ficava quieta, com o queixo tremendo e a respiração ofegante. Sentia o rosto enrubescer instantaneamente, e nessas horas parecia que o coração migrara para o pescoço aos saltos, e os olhos ardiam com as lágrimas que, a todo custo, ela fazia questão de reter.
No longo corredor da casa de madeira, a menina inventava passos de balé, e gostava de correr com uma das mãos tocando a parede, alternando tábuas finas e grossas, para sentir uma sutil dormência dos dedos. Em frente ao quarto da mãe, com os pés em meia ponta, diminuía o passo e prendia a respiração, tornando-se quase invisível. Depois, deslizava com suas meias cor-de-rosa de bailarina no chão encerado da cozinha.
Um dia, ainda muito nova, contemplou o vestido de veludo estendido sobre a cama. Não se lembrava de ter usado roupa tão linda. Ao lado, meias e uma linda fita de cetim verde para lhe enfeitar os cabelos finos. Quando saiu para o quintal onde seria a festa, ela se sentiu observada e admirada, e abraçou as pernas da mãe para esconder o rosto iluminado de vaidade e timidez. E logo se pôs a correr e saltitar com os pequenos que brincavam de pega-pega.
Na calçada, onde fugia da criança com as mãos sujas de doce que fatalmente manchariam seu lindo veludo, ela ouviu um estrondo. Primeiro, um barulho longo e agudo. Logo, uma batida seca de algo no chão. Virou-se para a rua, e naquele momento, o mundo movimentou-se em câmera lenta. O menino levantou-se cambaleante. O sangue lhe escorria até o queixo, onde as lágrimas chegavam pelo canto da boca. Paralisada, viu o terror nos olhos do pequeno, a recusa em ser ajudado, e os pés descalços, um sobre o outro, tentando esconder a mistura de sujeira e urina. Ela não conseguiu ver como ele se desvencilhou dos braços adultos ansiosos por socorrê-lo. Mas ouviu, espantada, quando ele disse “se minha mãe souber, vou apanhar”. À menina, aquelas palavras pareciam sólidas como pedras. Faltou-lhe o ar por uns segundos, e seu queixo tremeu. E ela viu quando a lágrima caiu sobre a gola de veludo. O menino já não estava mais lá. E foi então que, sem que ninguém a preparasse, a menina começou a crescer.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
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Muito bom!..... a forma como interrompeu a narrativa das felicidades e experiências infantis com o estrondo repentino faz o leitor experimentar, como se estivesse vivendo, a experiência da menina.
ResponderExcluirbjo!
adoro esse... bjs
ResponderExcluirMuito bom!!!! Adorei!
ResponderExcluirSaudade!
muito legal !!!! sou suspeito né!
ResponderExcluirbjos!!!
Dificil nao se identificar, pelo menos em alguma partezinha, com a menina...
ResponderExcluirMuito bom mesmo!
Beijos
é vc mesma q escreve?? nossa, ta mto bom!
ResponderExcluird+
bjo!