Recentemente temos sido bombardeados por notícias de pessoas que dizem matar “por amor”. Ouvindo os depoimentos, muitas vezes com ares dramáticos, dos tais matadores, dá a impressão de que o dito amor transbordou. É como se todo o resto dessas pessoas, seus valores, bom senso, senso de justiça e do moralmente aceito, tivesse se diluído e sido engolido por esse sentimento que algumas pessoas insistem em chamar de amor.
Talvez o amor seja um dos sentimentos mais difíceis de se definir. Não só porque parece ser o mais nobre dos atributos humanos, mas principalmente porque, ao que parece, se manifesta das mais diversas e plurais formas. Amor de mãe, amor de irmão, amor de amigo... todos diferentes, mas com algo de mágico ou transcendental que os faz ter o mesmo nome e trazer sensações semelhantes: aconchego, companheirismo, dedicação. Dificilmente conseguiríamos defini-lo de modo definitivo, nem é minha pretensão fazê-lo. Mas, com o mínimo de bom senso, é perfeitamente possível dizer o que NÃO é amor, e a que muitas vezes, por comodismo ou incapacidade de autocrítica, atribuímos nossas atitudes mais atrozes.
Amar não é possuir. O sentimento de posse, tão comum e aceitável hoje em dia, em tempos de consumismo total, foi sendo transferido, sem que nos déssemos conta, das coisas para as pessoas. Esse sentimento, aparentemente inofensivo, e às vezes até valorizado demais, despesonifica, aprisiona, “coisifica”. Não acho que se aplique, então, ao amor.
Amar não é agredir. Esse papo de que o amor é a outra face do ódio, na minha opinião é balela pura. Quem ama não desfigura, não causa dor, não tira sangue. O ódio não é o extremo do amor, mas sua negação em essência, por definição.
Amar não é limitar. O pensamento de que quando se ama dois se tornam um tem alimentado, inadvertidamente, a perigosa armadilha de tolher o que o ser humano tem de mais fascinante, sua individualidade, suas peculiaridades. Tornar-se metade de um é abrir mão dos “senãos” e porquês de cada um. Uma relação simbiótica, em que um não se define sem o outro não deixa espaço para crescimento, já que crescemos questionando sempre.
Sei que corro o risco de estar “chovendo no molhado”. As afirmações parecem óbvias, mas pensem bem: quantas vezes justificamos nosso ciúme, nossa raiva, nossa vontade de esconder o outro do mundo, dizendo que foi por amor? Todos nós já fizemos isso, pelo menos uma vez na vida. Sei que o caso dos “matadores por amor” é extremo, mas já pensaram que às vezes, ainda que inconscientemente, matamos o sonho do outro por medo de que ele cresça muito e nos deixe para trás? E matar os sonhos é aniquilar aos pouquinhos, despersonificar até o ponto em que o outro deixa de existir, como se tivesse mesmo morrido.
Sutilezas como essa me levam a pensar que talvez nunca seja demais relembrar o que não é amar. Não por simples exercício retórico, mas principalmente pela busca de autoconhecimento, pela difícil tarefa de conhecer e assumir nossas fraquezas e buscar sentimentos que nos fortaleçam, para que assim, aqueles a quem dizemos ou queremos amar possam crescer também. Quem sabe, quando descobrirmos tudo o que é não-amor, estejamos prontos para amar de verdade, e fazer do amor a justificativa para a vida, e não para a morte.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Adjetivo: AMIGO
Indubitavelmente a moeda tem dois lados: “cara” e “coroa”. Inquestionavelmente, há pessoas “boas” e pessoas “más”, assim como existem profissionais “competentes” e profissionais “incompetentes”. Simples assim: ou “é” ou definitivamente “não é”. Grosso modo, parece que o mundo está polarizado. E acho que, pensando logicamente, talvez esteja mesmo. Não é?
Pessoalmente sempre lutei contra esse tipo de raciocínio maniqueísta. Há nuances e tons indecifráveis em qualquer situação real com a qual nos deparemos. Nenhum ser humano é completamente bom. Ninguém é tão bom que não possa melhorar (chavão, admito!). E o que dizer daqueles que, por piores que nos pareçam, são o melhor que puderam ser, consideradas as devidas circunstâncias (ou contingências, como diriam meus queridos behavioristas).
Mantendo meu tom relativista mas assumindo um lado totalmente radical, há “amigos” e “amigos”. Relativo porque, em linhas gerais, todos são amigos, tolerantes e sinceros, guardadas as devidas proporções. Voltando ao meu absolutismo utópico e completamente radical, ou se é amigo, ou não. Ponto! E defendo isso, com unhas e dentes afiados, a partir daqui.
Alguns adjetivos de nossa linguagem – e consequentemente de nosso cotidiano – não admitem meio termo. Ou se é honesto ou as notas preencherão nossas meias; não existe alguém “meio” cortês, “parcialmente” leal ou “circunstancialmente” engajado. Pois bem, o substantivo “amigo” para mim, é um desses adjetivos. Como eu já disse, ou é, ou não é.
De tantas pessoas que conheço, poucas – eu até diria pouquíssimas – são merecedoras do adjetivo “amigo”. Porque ser amigo é muito mais complexo do que parece. Para mim e, destaco, isso é absolutamente pessoal, “amigo” é palavra perene. É aquele que se faz presente, independente de nossa vontade, como uma quase imposição. Não por força, mas por necessidade natural, por definição. É aquele que temos vontade de mandar uma mensagem no celular de madrugada só pra dizer: “a noite foi massa, faltou você”.
Pronto, achei o que eu queria dizer: amigo é aquele que está presente o tempo todo, ainda que esteja do outro lado do mundo (geográfico). Que merece aquela lágrima mais resistente e o sorriso espontâneo que, se fosse de outro jeito, não existiria. São essas pessoas adjetivadas por “amigo” que dão graça e sentido a todas as nossas histórias. Que não nos levantam, tão pouco nos derrubam, apenas nos dão as mãos (as duas) e se sentam ao nosso lado quando preciso...
Enfim, acho que nessa história de “amigos” sou mesmo radical! Não tenho amigos “guardadas as devidas proporções”. Esses são colegas, conhecidos, coisas do tipo... Amigos, de verdade, e por definição, são mais do que “uma parte da gente”, são a parte da gente que vale a pena contar. E sempre repetir.Ponto final!
Pessoalmente sempre lutei contra esse tipo de raciocínio maniqueísta. Há nuances e tons indecifráveis em qualquer situação real com a qual nos deparemos. Nenhum ser humano é completamente bom. Ninguém é tão bom que não possa melhorar (chavão, admito!). E o que dizer daqueles que, por piores que nos pareçam, são o melhor que puderam ser, consideradas as devidas circunstâncias (ou contingências, como diriam meus queridos behavioristas).
Mantendo meu tom relativista mas assumindo um lado totalmente radical, há “amigos” e “amigos”. Relativo porque, em linhas gerais, todos são amigos, tolerantes e sinceros, guardadas as devidas proporções. Voltando ao meu absolutismo utópico e completamente radical, ou se é amigo, ou não. Ponto! E defendo isso, com unhas e dentes afiados, a partir daqui.
Alguns adjetivos de nossa linguagem – e consequentemente de nosso cotidiano – não admitem meio termo. Ou se é honesto ou as notas preencherão nossas meias; não existe alguém “meio” cortês, “parcialmente” leal ou “circunstancialmente” engajado. Pois bem, o substantivo “amigo” para mim, é um desses adjetivos. Como eu já disse, ou é, ou não é.
De tantas pessoas que conheço, poucas – eu até diria pouquíssimas – são merecedoras do adjetivo “amigo”. Porque ser amigo é muito mais complexo do que parece. Para mim e, destaco, isso é absolutamente pessoal, “amigo” é palavra perene. É aquele que se faz presente, independente de nossa vontade, como uma quase imposição. Não por força, mas por necessidade natural, por definição. É aquele que temos vontade de mandar uma mensagem no celular de madrugada só pra dizer: “a noite foi massa, faltou você”.
Pronto, achei o que eu queria dizer: amigo é aquele que está presente o tempo todo, ainda que esteja do outro lado do mundo (geográfico). Que merece aquela lágrima mais resistente e o sorriso espontâneo que, se fosse de outro jeito, não existiria. São essas pessoas adjetivadas por “amigo” que dão graça e sentido a todas as nossas histórias. Que não nos levantam, tão pouco nos derrubam, apenas nos dão as mãos (as duas) e se sentam ao nosso lado quando preciso...
Enfim, acho que nessa história de “amigos” sou mesmo radical! Não tenho amigos “guardadas as devidas proporções”. Esses são colegas, conhecidos, coisas do tipo... Amigos, de verdade, e por definição, são mais do que “uma parte da gente”, são a parte da gente que vale a pena contar. E sempre repetir.Ponto final!
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