terça-feira, 25 de maio de 2010

Psicologia?

Esses dias eu estava pensando sobre o quanto é difícil escolher uma profissão. Você tem que pensar muito seriamente sobre suas habilidades e limitações. E, além disso, considerar as dificuldades intrínsecas a cada carreira. No meio desse pensamento, fui surpreendida por lembranças que, alguns anos depois dos fatos, tornaram-se engraçadas.
Lembro-me também que já compartilhei essas lembranças com alguns colegas e todos relataram ter vivido situações semelhantes. Trata-se de frases que você ouve, antes, durante e depois da faculdade, que no momento em que são ditas, nos despertam verdadeira fúria, mas que com o tempo, tornam-se até parte da mítica de qualquer profissão. No meu caso, me formei em psicologia. Compartilho com vocês, agora, alguns desses momentos pitorescos.
De antemão, peço desculpas aos leitores que não são da área, mas tenho certeza que, adaptando-se certas situações, todos já passamos por algo semelhante! E para os da área, advirto, esse texto é uma brincadeira com as delícias e agruras da nossa linda profissão.

Frases que ouvimos antes de entrar na faculdade:
-Do professor do cursinho: Psicologia? Achei que você fosse tentar algo mais difícil!
-Do seu pai: Psicologia? Tem campo pra “isso”?
-Do seu melhor amigo: Cuidado, hein... O tio da amiga da minha vizinha é psiquiatra. Esse povo que mexe com gente doida acaba ficando um pouco doido também!

Logo no começo do curso:
- Dos professores:
De Fundamentos da Psicanálise: A Psicanálise é mais profunda, procura a raiz do problema.
De Introdução à Psicologia Comportamental: A Comportamental é mais efetiva, porque procura a raiz do problema.
De Sociologia: A Sociologia é mais importante, porque questiona a raiz social do problema.
De Estatística: Se eu comi dez frangos, e você nenhum, então comemos cinco frangos em média. Você comeu cinco, sem ter comido nenhum!

-De desconhecidos, na mesa do bar:
O autossuficiente: Não preciso de terapia. Meu terapeuta é meu melhor amigo.
O autocentrado: Psicologia, é? Então tudo que eu disser você vai analisar?

-Da sua tia-avó: A melhor terapia é fazer tricô. Os antigos já falavam...

-Do seu melhor amigo: Preciso da sua opinião; não sua opinião de amigo, mas sua avaliação como psicólogo

No meio de curso, início das disciplinas práticas:
-Dos professores:
De Clínica Psicanalítica: O tempo de uma disciplina é muito curto para a prática psicanalítica. O inconsciente é atemporal, mas precisa de tempo para ser analisado. Portanto, faremos apenas um “detour” pelos principais conceitos freudianos, para que, posteriormente, vocês possam se aprofundar no assunto.
De Clínica Comportamental: O tempo de uma disciplina é insuficiente para a análise funcional. O comportamento é fruto de contingências filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Portanto, faremos um recorte metodológico, com ênfase na ontogênese, para que posteriormente vocês possam se aprofundar no assunto.
De Dinâmica de Grupo 1 (que é obrigatória): Vamos nos sentar em círculo, no centro da sala. E agora cada um vai desenhar e pintar nas folhas de papel espalhadas no chão, um animal com o qual se identifica. Justificar? Não precisa justificar sua escolha, pois não haverá tempo hábil. Oportunamente, na disciplina “Dinâmica de Grupo 2 – estudos avançados” (que é opcional) vocês poderão se aprofundar no assunto.

-De desconhecidos, na mesa do bar:
O curioso: Diz ai, eu sempre tive curiosidade de saber... Por que a gente desenha uma casa, uma árvore e uma pessoa no psicotécnico do Detran?
O informado: Ouvi dizer que tem que desenhar o chão (embaixo da casa, da árvore e da pessoa).
O bicho-grilo: Psicologia? Acho super interessante. Inclusive, pesquiso muito sobre parapsicologia, projeciologia e medicina alternativa oriental.

-Da sua tia-avó: Não se formou ainda, minha filha? Mas tá namorando, né?

-Do seu melhor amigo: Vamos sair pra tomar uma cerveja? Mas sem aquele papo de inconsciente, contingência...

No final do curso:
-Dos supervisores de estágio em clínica:
Psicanalítica: O processo analítico, como o próprio nome diz, é um processo. E, enquanto processo, é inescrutinável. Em um ano de estágio, você provavelmente não poderá vislumbrar as relações intrínsecas à transferência. Mas o estágio é um momento importante para que esse aluno entre em contato com os conflitos inerentes à relação analista-paciente para que, posteriormente, em sua análise pessoal, possa lidar com essa angústia.
Comportamental: Nesse espaço de um ano, vamos procurar levantar todas as contingências possíveis, relacionadas ao comportamento do cliente. Com base nas contingências estabelecedoras e nas mantenedoras do chamado “comportamento-alvo”, vamos planejar a intervenção. Se der tempo, entramos com o plano de intervenção. Se não, elaboraremos um relatório detalhado das sessões, para que o estagiário do próximo ano dê continuidade aos procedimentos.

-Na escola onde você faz estágio em Psicologia escolar:
Da diretora: Mas cadê a mocinha que vinha ano passado? Ela era tão boazinha...
Da professora: Posso falar com você em particular? Então, sabe aquele menininho ali? O gordinho... ele tem problemas em casa. Será que você não poderia dar uma atençãozinha especial pra ele, tadinho?

-Na empresa onde você faz estágio em Psicologia Organizacional:
Do diretor da empresa: aqui estão os perfis. Qualquer dúvida, pergunte ao administrador.
Do administrador: recebeu os perfis? Qualquer dúvida, pergunte à minha secretária.
Da secretária: você precisa trazer os formulários da universidade, com urgência, para regularizar sua situação como estagiário aqui da empresa! Qualquer dúvida procure o jurídico.

-Do desconhecido, na mesa do bar: a essa altura, você não tem mais tempo nem paciência para ouvir desconhecidos. Nem para frequentar bares!

-Da sua tia-avó: vai se formar, já? Então agora já pode casar, hein?Ah, terminou? Que pena... vou tricotar uma manta pra Santo Antônio... logo logo você arruma outro!

-Do seu melhor amigo, depois que você conta sobre as suas frustações no último ano de curso, sobre as críticas da família à sua escolha profissional e sobre o pé na bunda que você levou do seu namorado (a) que reclamou o ano inteiro que você não tinha mais tempo pra ele (a): cara, na boa, acho que você deveria fazer terapia.

Ouço coisas engraçadas até hoje, passados mais de dez anos da formatura. Mas essa parte, fica pra outra vez...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Bom Dia, Boa Tarde!

Tem uma senhora que mora em uma casa antiga, próxima ao prédio onde moro. Sempre a encontro, desde que mudei pra cá, há dez anos. Geralmente ela está levando o lixo pra calçada, despedindo-se de alguém no portão, ou limpando a janela da frente. Eu, geralmente, estou indo ao supermercado ou à banca de revistas. Ou voltando de alguma loja do centro da cidade que fica, praticamente, no pátio do meu prédio e no quintal da tal senhora.
De uns anos pra cá, mesmo sem termos sido formalmente apresentadas, começamos a nos cumprimentar. Depois de anos de encontros (não nossos, mas de nossos cotidianos), um dia, não me recordo exatamente há quanto tempo, sorrimos uma para outra e dissemos “bom dia” – talvez tenha sido “boa tarde”. Provavelmente deve ter sido um dia em que ela abaixou a mangueira, com a qual lavava a calçada, para eu poder passar sem que os respingos d’água molhassem meus pés. Pode ter sido também num fim de tarde, quando quase nos esbarramos enquanto ela deixava o lixo na calçada e eu lia, andando, a sinopse de Casablanca na contracapa do dvd... Mero acaso, distração!
Hoje, voltando apressada do centro da cidade, passei em frente à casa de cabeça baixa, absorta por preocupações rotineiras e planos para o fim de semana. Saí desse “transe” alienante com um “bom dia”, cuja direção não identifiquei de pronto. Por reflexo, ou força do hábito, olhei em direção ao portão aberto e ela não estava lá. Procurei, talvez por milésimos de segundos, minha amiga desconhecida e a encontrei atravessando a rua e olhando para trás, à espera da retribuição do cumprimento. Vendo que eu estava “perdida” ela riu, discretamente. Eu também ri, um riso surpreso e meio tímido, e disse “bom dia”.
Inexplicáveis essas sensações sutis e desavisadas que surgem de situações singelas do dia-a-dia, né? Senti uma palpitaçãozinha quase inaudível, e, não sei por que, continuei sorrindo até chegar em casa. O que em minha amiga de calçada me captou? Por que, só depois do “bom dia”, olhei para frente, e para cima, e vi que depois de uma manhã nublada e gelada o sol surgia forte e as nuvens se afastavam?
De alguma forma, essa querida desconhecida fez diferença no meu dia. Não por ter feito ou dito algo extraordinário. Ao contrário,apenas cumprimos nosso protocolo tácito e mantivemos a assim chamada “política da boa vizinhança”. Hoje, talvez, eu estivesse especialmente sensível, ou preocupada, ou apressada. E o “bom dia”, acompanhado do riso discreto, tenha me reconfortado, acarinhado, por assim dizer.
Só agora, contando a história e revendo minhas reações, consigo perceber que essa vizinha passou a fazer parte da minha vida. E que talvez, em muitas outras situações, eu a tenha feito sorrir também, depois do meu “boa tarde”. Parece haver entre nós um tipo de intimidade absolutamente particular, conquistada com anos de calçada, muitos “bons dias”, e alguns sorrisos ocasionais. Nos tornamos próximas, sem nunca termos trocado mais do que duas palavras. E sei que sentirei sua falta um dia, quando eu estiver em outra vizinhança.
Ah, e de hoje em diante, vou dizer mais “bons dias”, andar menos de cabeça baixa e sorrir mais para esses amigos desconhecidos ocasionais.
A todos os meus leitores, uma boa tarde! Recebam, em suas casas, o meu sorriso!