Tem uma senhora que mora em uma casa antiga, próxima ao prédio onde moro. Sempre a encontro, desde que mudei pra cá, há dez anos. Geralmente ela está levando o lixo pra calçada, despedindo-se de alguém no portão, ou limpando a janela da frente. Eu, geralmente, estou indo ao supermercado ou à banca de revistas. Ou voltando de alguma loja do centro da cidade que fica, praticamente, no pátio do meu prédio e no quintal da tal senhora.
De uns anos pra cá, mesmo sem termos sido formalmente apresentadas, começamos a nos cumprimentar. Depois de anos de encontros (não nossos, mas de nossos cotidianos), um dia, não me recordo exatamente há quanto tempo, sorrimos uma para outra e dissemos “bom dia” – talvez tenha sido “boa tarde”. Provavelmente deve ter sido um dia em que ela abaixou a mangueira, com a qual lavava a calçada, para eu poder passar sem que os respingos d’água molhassem meus pés. Pode ter sido também num fim de tarde, quando quase nos esbarramos enquanto ela deixava o lixo na calçada e eu lia, andando, a sinopse de Casablanca na contracapa do dvd... Mero acaso, distração!
Hoje, voltando apressada do centro da cidade, passei em frente à casa de cabeça baixa, absorta por preocupações rotineiras e planos para o fim de semana. Saí desse “transe” alienante com um “bom dia”, cuja direção não identifiquei de pronto. Por reflexo, ou força do hábito, olhei em direção ao portão aberto e ela não estava lá. Procurei, talvez por milésimos de segundos, minha amiga desconhecida e a encontrei atravessando a rua e olhando para trás, à espera da retribuição do cumprimento. Vendo que eu estava “perdida” ela riu, discretamente. Eu também ri, um riso surpreso e meio tímido, e disse “bom dia”.
Inexplicáveis essas sensações sutis e desavisadas que surgem de situações singelas do dia-a-dia, né? Senti uma palpitaçãozinha quase inaudível, e, não sei por que, continuei sorrindo até chegar em casa. O que em minha amiga de calçada me captou? Por que, só depois do “bom dia”, olhei para frente, e para cima, e vi que depois de uma manhã nublada e gelada o sol surgia forte e as nuvens se afastavam?
De alguma forma, essa querida desconhecida fez diferença no meu dia. Não por ter feito ou dito algo extraordinário. Ao contrário,apenas cumprimos nosso protocolo tácito e mantivemos a assim chamada “política da boa vizinhança”. Hoje, talvez, eu estivesse especialmente sensível, ou preocupada, ou apressada. E o “bom dia”, acompanhado do riso discreto, tenha me reconfortado, acarinhado, por assim dizer.
Só agora, contando a história e revendo minhas reações, consigo perceber que essa vizinha passou a fazer parte da minha vida. E que talvez, em muitas outras situações, eu a tenha feito sorrir também, depois do meu “boa tarde”. Parece haver entre nós um tipo de intimidade absolutamente particular, conquistada com anos de calçada, muitos “bons dias”, e alguns sorrisos ocasionais. Nos tornamos próximas, sem nunca termos trocado mais do que duas palavras. E sei que sentirei sua falta um dia, quando eu estiver em outra vizinhança.
Ah, e de hoje em diante, vou dizer mais “bons dias”, andar menos de cabeça baixa e sorrir mais para esses amigos desconhecidos ocasionais.
A todos os meus leitores, uma boa tarde! Recebam, em suas casas, o meu sorriso!
sexta-feira, 21 de maio de 2010
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Bom dia, boa tarde, boa noite pra vc tb, querida!... :) beijos!
ResponderExcluirhoje recebi um lindo sorriso na minha casa...
ResponderExcluirda minha cunhadinha adorada!
bjosss
faltou eu nessa lista! hehehe
ResponderExcluirmuito boa noite meu amor!
Adorei o bom dia também! Boa tarde minha amiga...
ResponderExcluirBom dia, Naia!!!!!
ResponderExcluirmuita saudade!!!!!