Há dez anos Cecília observava a casa amarela de esquina, assobradada, com muro baixo e grades antigas. A varanda pequena, com azulejos portugueses azuis e brancos, a fazia lembrar de algum lugar incerto da infância. Talvez pela namoradeira, como as que via em filmes antigos, sobre as quais casais tímidos se entreolhavam e se tocavam sem ao menos se aproximar. As portas e janelas, com molduras de madeira e vidros um pouco manchados, eram estreitas e mantinham-se sempre fechadas, mas estranhamente a casa parecia estar sempre arejada.
Nesses anos de convivência, Cecília foi descobrindo, dia a dia, detalhes que a encantavam. O santuário vazio, ao lado da porta de entrada, a fazia pensar que talvez outras pessoas, de fé confessa, tenham passado por ali, logo que a casa foi construída. Provavelmente já se foram, pois a casa era visivelmente antiga, embora bem conservada. Mas Cecília sempre pensava que aquele "buraco" na parede era, provavelmente, a herança mais viva de um antigo morador, sua assinatura invisível.
O chão do quintal da frente era de pequenos paralelepípedos. Talvez fossem a continuação da rua, numa época em que o santuário na varanda era suficiente para protejer a casa. Talvez tenham sido pintados com giz por algum menino de calças curtas e suspensório, sob os olhares de reprovação da vizinhança. Para a parte de trás da casa, Cecília preferia não olhar. Visivelmente havia sido construída depois e quase feria as linhas clássicas da fachada. Era como um caixote atrás de um candelabro, quebrando não só o encanto estético, mas principalmente o onírico.
Visivelmente a casa era habitada. Vez ou outra Cecília via água escorrendo sob o portão que separava o candelabro do caixote, e ouvia barulho de vassoura. As violetas no parapeito estavam sempre floridas, e as plantas que emergiam dos respiros no paralelepípedo, bem aparadas e de um verde vibrante. E assim crescia seu encanto. A casa amarela era, sem dúvida, a personagem principal. Seus moradores eram, no máximo, vultos caprichosamente escamoteados sob o teto antigo e as paredes grossas.
Um dia, para sua surpresa, a janela da frente estava escancarada. Por poucos segundos Cecília sentiu quebrada a intimidade silenciosa que estabelecera com a construção. Os dez anos de convivência pareciam voar por aquela janela, e a casa lhe pareceu sólida demais, concreta, palpável. Aos poucos, a sensação de vazio deu lugar à curiosidade. Cecília repousou as sacolas sob o chão, fingindo descansar os braços e olhou para dentro da casa.
Viu estantes de madeira que ocupavam duas paredes do quarto, cheias de livros antigos, e um lustre de cobre com lâmpadas pequenas. De costas, uma senhora de cabelos brancos, presos à nuca em um coque, sentada em uma cadeira confortável, de costas para a janela. O estranhamento se dissipou... e protegida por um arbusto Cecília continuou espiando. E em poucos momentos tudo estava novamente em harmonia. A tal senhora era elegante e discreta, como a casa. Sobre os ombros usava um chale gris, e o coque no cabelo era delicadamente arrematado com uma pequena presilha de metal envelhecido.
Cecília retomou as sacolas e pensou que tudo estava em seu devido lugar. Ergueu-se e deu uma última olhada para a varanda, o santuário vazio, os paralelepídos, como sempre fazia quando passava por ali. Em passos lentos, olhou sobre os ombros, em direção à janela aberta. As estantes, o lustre... e a senhora? A cadeira estava vazia, meio virada para o lado, afastada de uma escrivaninha antiga, bem envernizada. Cecília não resistiu. Deu dois passos para trás para conferir o destino da tal senhora. De fato, não estava mais lá. Nem houve tempo de conhecer mais detalhes... sentiu por não poder incluí-la na intimidade que compartilhava com as portas e janelas estreitas, ou com as violetas sempre floridas.
Mas, antes que pudesse se afastar e continuar seus devaneios sobre a vida da casa amarela e de sua recém-descoberta moradora, um detalhe brilhante e colorido, sobre a escrivaninha de madeira, ofuscou seus pensamentos. Imediatamente Cecília sentiu-se subtraída, arrancada abruptamente de um sonho bom. Perdeu os passos por um instante e não pôde evitar conferir a desagradável descoberta: o encanto se quebrou, como um cristal fino. Sobre a escrivaninha antiga, envolto por livros antigos e pela luz fraca do lustre, havia um computador. Desses de última geração, colorido, super moderno. Um atentado ao bom gosto, à pureza da casa amarela e às suas recordações inventadas. Após dez anos de descobertas e intimidade, o castelo de Cecília desmoronou como rui um castelo de cartas, com um simples sopro de realidade.
Nesses anos de convivência, Cecília foi descobrindo, dia a dia, detalhes que a encantavam. O santuário vazio, ao lado da porta de entrada, a fazia pensar que talvez outras pessoas, de fé confessa, tenham passado por ali, logo que a casa foi construída. Provavelmente já se foram, pois a casa era visivelmente antiga, embora bem conservada. Mas Cecília sempre pensava que aquele "buraco" na parede era, provavelmente, a herança mais viva de um antigo morador, sua assinatura invisível.
O chão do quintal da frente era de pequenos paralelepípedos. Talvez fossem a continuação da rua, numa época em que o santuário na varanda era suficiente para protejer a casa. Talvez tenham sido pintados com giz por algum menino de calças curtas e suspensório, sob os olhares de reprovação da vizinhança. Para a parte de trás da casa, Cecília preferia não olhar. Visivelmente havia sido construída depois e quase feria as linhas clássicas da fachada. Era como um caixote atrás de um candelabro, quebrando não só o encanto estético, mas principalmente o onírico.
Visivelmente a casa era habitada. Vez ou outra Cecília via água escorrendo sob o portão que separava o candelabro do caixote, e ouvia barulho de vassoura. As violetas no parapeito estavam sempre floridas, e as plantas que emergiam dos respiros no paralelepípedo, bem aparadas e de um verde vibrante. E assim crescia seu encanto. A casa amarela era, sem dúvida, a personagem principal. Seus moradores eram, no máximo, vultos caprichosamente escamoteados sob o teto antigo e as paredes grossas.
Um dia, para sua surpresa, a janela da frente estava escancarada. Por poucos segundos Cecília sentiu quebrada a intimidade silenciosa que estabelecera com a construção. Os dez anos de convivência pareciam voar por aquela janela, e a casa lhe pareceu sólida demais, concreta, palpável. Aos poucos, a sensação de vazio deu lugar à curiosidade. Cecília repousou as sacolas sob o chão, fingindo descansar os braços e olhou para dentro da casa.
Viu estantes de madeira que ocupavam duas paredes do quarto, cheias de livros antigos, e um lustre de cobre com lâmpadas pequenas. De costas, uma senhora de cabelos brancos, presos à nuca em um coque, sentada em uma cadeira confortável, de costas para a janela. O estranhamento se dissipou... e protegida por um arbusto Cecília continuou espiando. E em poucos momentos tudo estava novamente em harmonia. A tal senhora era elegante e discreta, como a casa. Sobre os ombros usava um chale gris, e o coque no cabelo era delicadamente arrematado com uma pequena presilha de metal envelhecido.
Cecília retomou as sacolas e pensou que tudo estava em seu devido lugar. Ergueu-se e deu uma última olhada para a varanda, o santuário vazio, os paralelepídos, como sempre fazia quando passava por ali. Em passos lentos, olhou sobre os ombros, em direção à janela aberta. As estantes, o lustre... e a senhora? A cadeira estava vazia, meio virada para o lado, afastada de uma escrivaninha antiga, bem envernizada. Cecília não resistiu. Deu dois passos para trás para conferir o destino da tal senhora. De fato, não estava mais lá. Nem houve tempo de conhecer mais detalhes... sentiu por não poder incluí-la na intimidade que compartilhava com as portas e janelas estreitas, ou com as violetas sempre floridas.
Mas, antes que pudesse se afastar e continuar seus devaneios sobre a vida da casa amarela e de sua recém-descoberta moradora, um detalhe brilhante e colorido, sobre a escrivaninha de madeira, ofuscou seus pensamentos. Imediatamente Cecília sentiu-se subtraída, arrancada abruptamente de um sonho bom. Perdeu os passos por um instante e não pôde evitar conferir a desagradável descoberta: o encanto se quebrou, como um cristal fino. Sobre a escrivaninha antiga, envolto por livros antigos e pela luz fraca do lustre, havia um computador. Desses de última geração, colorido, super moderno. Um atentado ao bom gosto, à pureza da casa amarela e às suas recordações inventadas. Após dez anos de descobertas e intimidade, o castelo de Cecília desmoronou como rui um castelo de cartas, com um simples sopro de realidade.

a-d-o-r-e-i
ResponderExcluirAdoro acompanhar seus posts....
ResponderExcluirMuito bom, amiga!
Bejo!