quinta-feira, 10 de março de 2011

A Carta

J. V., março de 2011.

Cecília,

Acho que pela chuva insistente e constante o cheiro da fumaça das chaminés da vizinhança me é quase sólido. Tanto quanto são presentes algumas recordações longínquas que hoje me trazem até você. Lembro-me tão bem de acordar embalado pelos sinos da catedral, às seis da manhã, e ter como primeira vista os arbustos da calçada chacoalhando lentamente com a chuva e o vento discreto do final do verão.Não houve um dia sequer em que você já não estivesse em pé, coando o café no coador de pano e torrando o pão com manteiga na chapa de ferro. Às vezes ainda sinto cheiro parecido,às cinco da tarde, quando os homens voltam de marmita vazia e as luzes começam a ser acesas nos casebres de madeira sobre palafitas, tão comuns por aqui.
Confesso que me irritava ter que ajoelhar diante da sua Santa todos os dias antes da escola. Já tão pequeno eu tinha a consciência, ainda que primitiva, de que sonhos, expectativas e crenças não deveriam ser herdados. Que Santa era aquela mesmo? Sabe, os anos que passei "quebrando a cara por conta própria" me afastaram das crenças e sonhos com os quais você tentou me alimentar, mas não esqueço o medo que sentia da chaga que a sua Santa trazia na testa. Tive pesadelos com isso... por anos. Hoje, com as chagas invisíveis que adquiri "quebrando a cara",todo aquele meu medo foi reduzido a boas risadas em mesas de bar, onde contei em várias línguas, sempre em tom jocoso, a minha infância "no castelo amarelo" onde por vezes eu era super-heroi de calças curtas e suspensório marrom; outras tantas eu era o imperador, cercado por azulejos azuis, vigiado pela Santa da Chaga e protegido por grades brancas e baixas. Sempre pensava que só mesmo a Santa para me proteger da vulnerabilidade de meu castelo. Ainda mais quando Luzia, àquela época quase tão criança quanto eu, irrompia estrondosa e atrapalhada trazendo bolachas de nata para o banquete do imperador.
Por falar nisso, como anda a velha Luzia? Ainda se esmerando para manter limpa a parte de trás da casa? Sabe, Cecília, nunca entendi o motivo da reforma. Você envelheceu anos pensando nos detalhes e se empenhando na crueldade de cobrir de cimento e cal nossas lembranças mais alegres, minhas e de meus irmãos... Sim, porque o castelo na varanda da frente não era nada comparado à floresta tropical, cercada de cores e índios onde eu, um bandeirante de calças curtas e botas Sete Léguas, caçava tigres e elefantes para o sustento de minha gente. Anos depois, na África, lembrei-me disso e ri muito quando um habitante local me perguntou como caçávamos tigres no Brasil.Talvez tenha sido melhor manter minha floresta só na lembrança. Até porque antes mesmo de ter sido engolida por concreto e tijolo, ela ruiu nas aulas de geografia do Eugênio Franco... Só sei que até hoje não encontrei lugar onde, no meio de tantos perigos imaginários, me sentisse verdadeiramente tão feliz e protegido.
Não estranhe minha amargura. Ela não reflete, deveras, o atual estado de meu espírito; apenas reforça o caráter melancólico e saudosista de todos que andam pelo mundo em busca de algo que não sabem descrever, de pessoas imaginadas e de um futuro inalcançável. Posso dizer que estou feliz, aqui em J.V. Estive, ao longo desse anos de ausência, no centro do mundo. Fui engolido por arranhacéus cujos cumes se escondem nas nuvens, e regurgitado em desertos em que o horizonte é invisível, tamanha a imensidão do nada. Pessoas sem nome que passaram por minha vida me ensinaram coisas interessantes, mas nenhuma delas aprendi por completo. Minha alma inquieta me levava pra longe tão logo meu coração desse sinais de apego. E eu saía quase como saí de sua casa, sem dizer para onde, sem deixar endereço e, quase sempre, sem destino.
Com o passar do tempo, essas minhas andanças foram perdendo o sentido.Passei a não achar engraçadas as histórias regadas a conhaque e charutos de meus melhores amigos instantâneos. A modernidade das grandes cidades passou a ofuscar meus pensamentos com seus vidros azuis espelhados e suas lâmpadas frias. Passei a não enxergar mais a tradição de cidades centenárias, apenas o cinza de suas ruínas e o cheiro nauseante de suas vielas mal cuidadas. Muitas vezes tive pesadelos em que eu era enterrado por cimento e realidade, como aconteceu com minha floresta tropical.
Foi assim que há mais ou menos dois anos ancorei aqui em J.V. A princípio era só para passar a noite e descansar os pés de uma longa caminhada, desde o litoral. Decidi, já nessa primeira noite, estender minha estadia por mais uma semana. O lugar me pareceu perfeito para o descanso: roupas de cama limpas, café de coador de pano todas as manhãs e um silêncio nostálgico quase o dia todo, quebrado apenas pela Ave-Maria cantada pelos auto-falantes da igrejinha às seis da tarde, como é de costume nesta região de nosso país. E assim fui ficando. Me afeiçoei aos locais que se cumprimentam solenemente com um aceno de cabeça; são de poucas palavras, mas de um olhar firme e penetrante que me faz sentir tão seguro quanto em minha floresta da infância.
Poucos meses depois, já morando em um sobrado que pintei de amarelo e branco, conheci alguém que fez surgir em mim um sentimento que eu não conhecia até então: a vontade de criar raízes, de escrever minha história em único cenário. Não é de uma beleza estonteante ou de qualquer qualidade marcante que me permitisse descrevê-la em uma palavra. É simplesmente uma dessas pessoas que parece que conhecemos desde sempre; sem mistérios, de poucas palavras como todos aqui, e de gestos contidos, embora não calculados.
Quando a vi pela primeira vez meus olhos fixaram-se instantaneamente em seu rosto, de uma brancura quase transparente, emoldurado com cabelos finos, compridos e negros. A vi de perfil e já notei a harmonia de seus traços, sustentados por um pescoço afilado e um colo tão discreto quanto seus olhos pequenos, de um cinza apagado, quase gris. E foi quando ela se virou, ficando de frente para mim, com um meio sorriso, que decidi ficar aqui definitivamente. Uma marca em sua testa - que em muito me lembrou a chaga de sua Santa – desviou meus olhos instantaneamente, e o medo pueril de outrora ressurgiu travestido de ternura e segurança... Inexplicáveis essas coisas do amor, não Cecília?
Hoje me sinto com o coração aveludado. Ainda não sei o que procurava, mas o que encontrei me trouxe o conforto do qual fugi inicialmente... o conforto de nossa casa amarela de esquina, com meu despertar embalado pelos sinos da Catedral.
Em breve nossa filha virá ao mundo e espero, mais do que tudo, que ela se sinta segura aqui, como eu me sentia na floresta dos fundos da casa amarela. Em homenagem a esse mundo de sonhos que contei e recontei diversas vezes à minha “salvadora”, nossa pequena imperatriz (ou bandeirante) se chamará Cecília. Confesso que não foi minha a ideia, mas com o tempo passei a gostar de trazer para minha nova vida traços, cores e contornos do passado que hoje reinvento e revivo, a cada segundo. Pela minha vontade inicial era teria o nome da mãe: Rita. Rita de Cássia!
Ass: Seu caçula

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