Observadora e crítica, ainda na feira, logo que o sol nascia, escolhia o abacaxi como quem seleciona uma jóia. Primeiro olhava, atenta, a cor, pequenas imperfeições na casca e o aspecto da coroa. Invariavelmente, travava um pequeno diálogo com o feirante que logo, sem perceber, falava da procedência, armazenamento e qualidade do produto. Não raro, diante de tamanha simpatia e doçura, o homem de voz aguda e sotaque carregado do agreste pernambucano dizia baixinho: Dona Neném, hoje eles estão aguados, “sonsos”... mas se a senhora voltar amanhã, guardo os melhores que chegarem, logo cedo, do Ceasa. E geralmente era assim. Em poucos instantes de conversa, ela cativava estranhos e extraía, sem que eles percebessem, o que cada um tinha de melhor, ou de mais secreto. Não raro, pelos corredores da feira, podia-se ouvir alguém gritando: Opa, Dona Nenem, mainha saiu do hospital. Aquele chá é milagroso mesmo, visse? Logo que respondia à saudação, me puxava pelo braço e dizia baixinho, referindo-se à tal “mainha” recém restabelecida: “já fizeram de tudo, mas não tem jeito não minha filha, é coisa ruim mesmo. Coitada, tão nova...”
Quando a incursão resultava em sucesso, chegava em casa carregando as sacolas de couro cheias de cores, cheiros e texturas. Lavava tudo e separava cuidadosamente, mais ou menos como guardava as roupas engomadas no armário. Sobre as verduras ou as camisas, sempre passava a mão, como um afago, antes de fechar a porta. Contente, punha-se então a separar caçarolas e colheres de pau (segundo ela indispensáveis à boa mesa) com a habilidade e a destreza de um cirurgião, e movia-se pela cozinha alternando passos largos e meias-voltas, como num bailado de quadrilha antiga. E assim começava o ritual da Delícia de Abacaxi. Aprendi muito sobre Dona Neném vendo-a cozinhar. Vamos então á receita.
Como disse antes, o abacaxi deve ser escolhido como se fosse uma jóia. Deve ser observado, e manuseado muito delicadamente. E era mais ou menos assim que ela escolhia tudo em sua vida. Antes da missa, ela abria as portas do guarda-roupas e olhava todos os vestidos. Tirava dois ou três, estendia-os sobre a cama (ainda nos cabides). No chão, logo abaixo de cada um deles, alinhava um par de sapatos e voltava a observar. Escolhia um conjunto e o colocava na frente do corpo diante do espelho. Esticava um dos pés até perto do sapato e inclinava, vagarosamente, a cabeça para a direita, para que os olhos pudessem alcançar toda a extensão da imagem refletida. Com o abacaxi da “delícia”, ela agia com o mesmo cuidado até a hora de descascá-lo e cortá-lo em cubos médios.
Era nesse momento (o de descascar e cortar), que Dona Neném revelava, ainda que inadvertidamente, nuances de sua personalidade que costumavam passar despercebidas. Sem medo de se machucar, envolvia a coroa do abacaxi com uma das mãos e arrancava-a em um só movimento. Segurava a faca afiada com firmeza e cortava o abacaxi ao meio, como diziam na época, lá em Pernambuco, “num talho só”. Em seguida, de cada metade arrancava tiras grossas de casca, batendo a faca afiada na tábua de madeira ao final de cada corte. Era tão incisiva e precisa que todos os movimentos, até que o tão “precioso” abacaxi estivesse reduzido a cubos em tamanho uniforme, pareciam fazer parte de um único e ininterrupto gesto de balé, como nas seqüências de piruetas que costumam arrancar aplausos empolgados da platéia.
Era com essa força e agilidades quase rudes que Dona Neném se referia a seus poucos desafetos. Cabe uma ressalva: não só eram poucos, como também passageiros. Magoava-se tão rapidamente quanto separava, num talho só, as metades do abacaxi. Bastava uma palavra mal colocada, um olhar interpretado como malicioso ou uma crítica, qualquer que fosse, a seus filhos e netos, para suas bochechas enrubescerem e seu buço cobrir-se instantaneamente com gotículas de suor. E toda essa efervescência ebulia em exclamações agudas, que não chegavam a ser gritos, quando o autor dos tais “desaforos” se ausentava: “Ôxe, cabra safado, sem vergonha!”... “Isso é inveja desse porcaria!”... “Que besteira, tá pensando que é high society!”
Como eu disse, os desafetos eram, em sua maioria, passageiros. Após a explosão de agilidade e força com que cortara o abacaxi, ela ajeitava os cubos em uma panela grande, espalhava sobre eles uma generosa xícara de açúcar e fervia a mistura, mexendo sempre (com a colher de pau), até que se transformasse em um doce caudaloso. Da mesma forma, após a explosão de raiva, ela respirava fundo e se calava por um bom tempo. Esse tempo, para mim, permanece uma incógnita: era impossível perceber se a raiva passara ou se, como o doce, estava sendo “apurada”, remexida, para se transformar depois em algo que já não era raiva, mas que permanecia em cubos, como antes. Só sei que dias depois, se soubesse de alguma desventura ou infortúnio do tal “cabra safado”, derretia-se como o açúcar do doce e, com ares de arrependimento dizia, agora em tom moderado: “O bichinho... é um coitado esse fulano”... “Êita danado, foi mesmo,foi? Esse é mesmo um pobre coitado...”
Feito o tal doce com os cubos do abacaxi e a xícara de açúcar, Dona Neném separava a calda, usando uma peneira que retinha o abacaxi e deixava escorrer o líquido, agora viscoso, e em tom amarelo claro. Para separar bem, quando o líquido parava de verter, ela espremia delicadamente, com uma colher, os cubos de abacaxi ainda dispostos na peneira. Poucas gotas caíam, mas incrivelmente, sempre eram suficientes para completar a medida de calda necessária para a receita: o equivalente a uma lata de leite condensado. E ela dizia: “Minha filha, cozinha é assim: tem a receita, que é bom seguir. Mas os segredinhos a gente só aprende fazendo mesmo”.
Taí, mais um pedacinho de Dona Neném na Delícia de Abacaxi! Com uma formação moral e religiosa muito rígida, perdeu a mãe, vítima de derrame, quando tinha apenas quinze anos. Pelo que me lembro, Dona Estelita teve pouco tempo para ensinar a Neném algumas coisas importantes sobre a vida. Então Dona Neném cresceu com algumas poucas regras que lhe foram passadas pela mãe, e que, invariavelmente, ela seguia. O resto, os “segredinhos”, acho que ela foi aprendendo aqui e ali, observando os outros, e incluindo gestos e palavras em sua receita de vida. A mãe, antes de morrer, ainda teve tempo de ensiná-la a bordar. Todas as noites, quando Neném já estava deitada, Estelita ia a seu quarto e pegava, sobre a mala onde guardava os bordados, a peça que Neném confeccionava no momento. Erguia-a contra a luz, olhava o direito e o avesso, chacoalhava, como que para tirar o pó e colava-a novamente sobre a mala. Um noite, pensativa, olhando para o nada Dona Neném me perguntou: “Tu ainda borda?”. Diante da minha resposta afirmativa, ela respondeu, ainda pensativa: “Eu bordava tão direitinho... minha mãe me ensinou... bordei todo o meu enxoval, mas minha vontade de bordar morreu com ela”.
A próxima etapa da receita da Delícia de Abacaxi, me lembra um momento muito especial que vivi com Dona Neném: ela me ensinou a abrir latas! Os cubos de abacaxi eram colocados no fundo de um refratário, e sobre ela, colocava-se um creme que deveria ferver até desgrudar do fundo da panela. Esse creme era feito com três gemas de ovo, a calda do doce de abacaxi e uma lata de leite condensado. Enquanto Dona Neném separava as gemas, pediu que eu abrisse a lata de leite condensado. Constrangida, no auge do orgulho de uma criança de nove anos, eu disse, já com lágrimas nos olhos: “eu não sei abrir lata”. Explico o orgulho e as lágrimas: meses antes desse momento com Dona Neném, tentando ajudar minha mãe na cozinha, fracassei na difícil tarefa de abrir uma lata de ervilhas. Por motivos que até hoje não conheço muito bem, naquele dia minha mãe estava, como costumava-se dizer, “uma pilha de nervos”. O resultado foi desastroso, com a lata de ervilhas no chão, semi-aberta, minhas mãos tremendo como as asas de uma borboleta e minha mãe irritada com o atraso que eu havia provocado. Isso explica as lágrimas. O orgulho é o de toda criança, ferido ao admitir que não sabe fazer algo tão banal.
Aparentemente sem se abalar muito, Dona Neném terminou de separar as gemas, lavou as mãos e enxugou-as no avental enquanto eu contava, já aos soluços, minha triste incursão pelo mundo dos abridores de latas. Interrompeu então a receita (coisa que ela não gostava muito de fazer) e me pegou no colo, me aninhou, como quem embala um recém nascido e me explicou alguns dos problemas que construíam a “pilha de nervos” de minha mãe (sua filha). Vendo que eu me acalmava e que já praticamente me condoia com as agruras de uma mãe de trinta e cinco anos, ela anunciou, em tom de epopeia: “Venha, Nega, vamos lavar o rosto que eu vou te ensinar a abrir latas... você vai ver, não tem segredo não, é só praticar”. Devo ter atrasado a Delícia de Abacaxi em pelo menos uns quarenta minutos. Ela segurou a minha mão e foi explicando: “Isso, o dedão empurra”, “só mais um tantinho de força”, “escorregou?, não tem problema não, isso é assim mesmo”, “calma, não precisa chorar, isso é uma besteirinha de nada”.
Os últimos três empurrões no abridor eu consegui dar sozinha. Vitória! Dona Neném e Luciene, a empregada de traços fortes e ombros largos, masculinos, aplaudiram e correram logo para mostrar a todos da casa, a essa altura toda mobilizada com a minha empreitada: “Veja Alcides, ela abriu praticamente sozinha!”, ao que ele respondeu: “Essa menina é mesmo uma danada!”. Luciene, empolgada, com a lata na mão e o sorriso duro aberto: “Ó paí, Seu Pedrinho, abriu foi a lata todinha, ó!”, e o velho Pedro: “Isso é a maior abridora de latas de todos os tempos!”. Naquele dia, mais do que em qualquer aniversário, formatura, defesa de tese que viria depois, eu fui o centro das atenções, e o motivo da festa!
A festa acabou tão rápido quanto começou. E como se nada tivesse acontecido, mas com um sorriso de satisfação no rosto, Dona Neném lavou as mãos novamente, enxugou-as mais uma vez no avental, e finalmente pode misturar, em uma panela, as três gemas, a calda de abacaxi e o leite condensado da tão festejada lata. Nesse caso, o “segredinho” era mexer lentamente, mas sem intervalos, até o creme ferver e começar a desgrudar do fundo da panela. E era assim sempre que algo inesperado interrompia sua rotina.
Certa vez, Luciene se estranhou com Dourado, o cão da família. Sobre Luciene, cabe um à parte: abandonada pela mãe, ainda muito pequena, foi criada pelo pai e os cinco irmãos homens. E foi assim, como mais um homem da família que foi educada. Carregava sacos pesados na feira de Limoeiro e jogava bola tão bem quanto os moleques da vizinhança. O peso das macaxeiras, inhames e jacas lhe moldaram o corpo de forma truculenta e, olhando-a de costas, exceto pelos lindos e lisos cabelos negros que lhe caíam até o ombro, poderia facilmente ser confundida com um rapaz. A despeito da truculência, na maior parte do tempo era divertida e agitada, com gestos e tons infantis até. Trocava as letras das músicas que ouvia no pequeno rádio a pilha que permanecia ligado na casa de Dona Neném até as quatro da tarde, quando terminava seu serviço e saía de bicicleta para comprar pão. E era também como uma criança que, esporadicamente, tinha acessos repentinos de fúria. E foi num desses acessos que imprensou Dourado entre as portas que se abriam para o terraço da casa. Ao grito agudo repetido do cachorro, Dr. Alcides irrompeu da biblioteca da casa, pisando firme, quase correndo. Ao deparar-se com a cena da empregada maltratando o cachorro, teve ele também um acesso de fúria, e como era comum nesses momentos, gritou, quase em desespero: “Neneeeeeeeem!”. Pronto, estava quebrada a rotina de Dona Neném!
Assustada com o estardalhaço, Dona Neném inteirou-se logo do que estava acontecendo. E pronto, instaurou-se o desafeto: gotas de suor no buço, rosto vermelho, respiração ofegante e as exclamações agudas, quase ácidas, que Luciene ouvira tantas outras vezes, só que dirigidas a ofensores ausentes: “Você uma mulher danada de ruim, sua peste!”, “Como é que alguém tem coragem de judiar de uma criatura de Deus desse jeito?”, “O bichinho não faz mal a ninguém, sua nega ruim da moléstia!”
Os apelos de Luciene para não ser demitida (e com isso perder também o teto) não tardaram. Vinham sempre permeados por sua triste história de abandono, e muitas, muitas lágrimas. E muitos, muitos soluços. E pronto, o coração de Dona Neném amoleceu, aos poucos mas não vagarosamente, exatamente como o doce de abacaxi em cubos. Em poucos instantes (que naquele momento pareceram uma eternidade) e após boas doses de carinhos e sorvetes para Dourado, Dona Neném estava de volta à maquina de costuras. E antes de dormir, quando Luciene se despediu em direção ao quarto nos fundos da casa, ouviu de uma agora calma e terna Dona Neném: “Deus te abençoe, minha filha”.
Se tem algo que “herdei” de Dona Neném foi uma certa dificuldade em lidar com o que ela chamava de “modernidades”. Liquidificadores e batedeiras elétricas só eram usados em caso de extrema necessidade. Quando experimentava algo que tivesse preparado, dizia orgulhosa: “tudo feito ‘na mão’ é mais gostoso”. Bolos eram batidos manualmente, e o leite de coco extraído da própria fruta, com o auxílio de um ralador. Aliás, uma das imagens mais presentes que tenho daqueles tempos é a de Dona Neném sentada em um tamborete ralando o coco maduro para em seguida extrair o leite, torcendo a polpa em um pano de prato limpo.
Para a última camada da Delícia, ela batia as claras em neve com um utensílio em forma de mola, com cabo de madeira. O ponto, dizia ela, era quando as claras se pareciam com nuvens e não caíam da tigela quando esta era emborcada. “Esse ponto, minha filha, a gente só consegue na mão mesmo... esse negócio de batedeira não dá certo não”. Às claras ela acrescentava vagarosamente uma lata de creme de leite (sem o soro), formando assim a cobertura da Delícia de Abacaxi. A textura dessa última etapa ficava aerada e refrescante, equilibrando a acidez dos cubos de abacaxi e o doce quase enjoativo da segunda camada.
Hoje, relembrando a nuvem na tigela, sem que eu entenda muito bem por quê, me vem à tona uma imagem: À noite, infalivelmente, ela me colocava na cama já preparada com o mosquiteiro cor-de-rosa, chacoalhava um lençol branquinho e sempre muito cheiroso e me cobria tão delicadamente quanto misturava as claras com o creme de leite. A despeito do calor quase sólido de Recife em janeiro, o toque do lençol em minha pele e o “Deus te abençoe” que eu ouvia em seguida me causavam um conforto que até hoje eu não consigo explicar. Pensando bem, acho que essa recordação conectou-se à terceira camada da Delícia pela suavidade com que Dona Neném tratava tudo o que dizia respeito a mim. Antes de sair do quarto, ela apagava a luz e ligava o ventilador. E eu dormia, com o gosto de nuvens na boca e todas as sensações que emanavam de Dona Neném me tocando a pele: o doce, o ácido e o refrescante equilibrados em um coraçãozinho que começava a crescer.
quinta-feira, 8 de março de 2012
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Muito muito legal!!!!! Te amo!!!!!!
ResponderExcluirMuito lindo, Naia!!! Adorei!
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