quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Do Lado de Dentro

Parece que hoje é só mais um dia de primavera, nesta cidade que há tantos anos me acolheu como filha. Logo cedo, molhando as violetas da janela da frente, percebi que os dias estão estranhamente iguais, como se eu vivesse uma eterna quarta-feira. Aliás, há tempos me sinto assim, embora não saiba precisar desde quando exatamente... Talvez tenha sido logo que os meninos saíram de casa para experimentar o mundo do qual os protegi, tão cuidadosamente, por trás desses muros com grades brancas. Sabe, quando meu caçula decidiu, com palavras dele, "quebrar a cara por conta própria", desisti das novenas e guardei para sempre a imagem de Santa Rita da qual dependia a minha ilusão de proteção divina. Ao contrário do que possa parecer, não tive a tão sonhada sensação de dever cumprido. Antes, pareceu-me uma jornada interrompida, um parto precoce acompanhado de uma dor metafísica, indizível.
Para preencher o tempo, dediquei-me à reforma da casa, embora minha vontade mais premente fosse vendê-la de portas fechadas. Só hoje vejo que me apeguei à ilusão de que os meninos voltariam, atraídos pela contemporaneidade da área de lazer cuja construção estendeu-se por anos além do planejado.
Eles não voltaram. De passagem, algumas vezes, os arrastei para explicar detalhes da construção, mas os três, em uníssono, insistiram que a reforma descaracterizou a casa, e tornou invisíveis suas lembranças de infância. Doeu-me ouvir isso por me sentir, pela segunda vez, coadjuvante. Antes, do mundo, agora da casa.
Depois dessa triste desilusão, mandei construir um muro, separando a área de lazer. Assim, quem passa na rua, tem a sensação de que a casa se resume à fachada. Escondendo a modernidade, me prendi, por conta própria em um passado aparentemente mais feliz. Minha prisão não é metafórica, como pode parecer. Há anos não frequento e nem olho para aquele lado. Sua manutenção fica por conta de Luzia, que há tantos anos me trás ervas frescas que ela mesma plantou no pequeno espaço de terra que restou em um canteiro, ao lado do muro que divide o passado que não tenho mais do futuro que sonhei.
Com o tempo, detalhes de minha prisão tornaram-se irritantes. Os vidros das jenelas e portas embaçaram, e Luzia já não consegue mais deixá-los translúcidos. Então, todas as imagens que vejo, quando olho para fora, são foscas. Certamente isto contribuiu para que todos os dias se tornassem o mesmo, ao longo dos anos. Os azulejos da varanda me parecem hoje de um retrô cafona, quando contrastados com o amarelo das paredes. E todo esse amarelo, tão pálido, transformou minha vida num álbum de fotos envelhecidas. Até a água que escorre sob o portão quando Luzia está lavando a área de lazer, me causa desconforto, pois dá vida a um futuro sonhado que eu me esforço para esquecer.
No meio desse turbilhão de desagrados, há apenas um pequeno momento em que me sinto novamente protagonista. É quando a desconhecida passa e se espreita entre os arbustos da calçada, ou se esconde na sombra da paineira para me espiar. Ela finge repousar as sacolas no chão, enquanto o suor lhe escorre pelo rosto, mas o descanso me parece artificial, programado. Percebo que ela olha a fachada da casa, percorre as janelas e a varanda, para me encontrar em algum cômodo... e inventar lindas histórias a meu respeito, para alimentar sua imaginação jovem.
Há dez anos, toda quarta-feira, dispenso meus pijamas de malha e me cubro com meu xale cinza, presente de vovó para mamãe, que herdei ao completar sessenta. Prendo os cabelos com uma presilha velha, que encontrei entre as coisas de vovó, logo que ela morreu, e enceno um ar sóbrio e sereno que nunca busquei. Após alguns anos brincando com a estranha de gato e rato, decidi transformar em história essa passante desconhecida, e dedico boas horas dos meus dias iguais a descrevê-la e descobri-la, como ela parece fazer comigo, em seu íntimo. Para agilizar meu trabalho literário, aposentei meu velho diário de capa de couro e comprei um computador, que para mim nada mais é do que uma máquina de escrever que permite correções.
E assim, todos os dias, que continuam iguais, passei a vestir o xale e prender os cabelos para recriar a passante desconhecida que tranformou algumas de minhas quartas-feiras em sábados de espetáculo. Mantenho, no entanto, uma tradição de meu velho diário: escrever o local, a data, e assinar com meu primeiro nome ao final de cada página.
Cecília
S. C., 18 de agosto de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Homenagem

Eu queria ser poesia, dessas que rimam e arrepiam. Eu queria ser Chico e um dia chegar tão diferente do meu jeito de sempre chegar. Distraída, compor alguns Vinícius, e te pedir perdão por te amar de repente. Entoar Tons brasileiros, e perder a noção da hora, e jogar tudo fora. Inevitável então seria chorar Bethânias no cavaquinho, de canções alheias cantadas divinamente sem sentido. Sem sentido? Seria eu Caetano, então, sem essa aranha prá lá de Teerã? Ou não! Eu anoiteceria Elis,com um band-eid no calcanhar e amanheceria Djavan, em flor de lis. E por falar em flor, por um pequeno instante eu seria Noel. E me queixaria às rosas, já que não falam. Deitaria Gonzaga sem nem um pé de plantação e levantaria na Noite Ilustrada, sacodindo a poeira e dando a volta por cima! Eu seria também Roberto, afinal, tenho tanto pra te contar... E nessa hora, eu entoaria Tim Maia, pois queria que o mundo inteiro me pudesse ouvir.
Afinal, sou só palavras soltas, presas à prosa, sem rimas. Sonho reinventar Erasmo, fazer meus castelos e ser salva do dragão, emprestado de São Jorge, e ainda por cima aprender japonês em braile.
Queira Deus que esses meus devaneios sejam apenas um pedaço de mim, uma metade arrancada de mim. Enfim, peço licença a Oswaldo para me declarar entre parênteses: porque metade de mim é amor (às palavras), e a outra metade também.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Casa Amarela

Há dez anos Cecília observava a casa amarela de esquina, assobradada, com muro baixo e grades antigas. A varanda pequena, com azulejos portugueses azuis e brancos, a fazia lembrar de algum lugar incerto da infância. Talvez pela namoradeira, como as que via em filmes antigos, sobre as quais casais tímidos se entreolhavam e se tocavam sem ao menos se aproximar. As portas e janelas, com molduras de madeira e vidros um pouco manchados, eram estreitas e mantinham-se sempre fechadas, mas estranhamente a casa parecia estar sempre arejada.
Nesses anos de convivência, Cecília foi descobrindo, dia a dia, detalhes que a encantavam. O santuário vazio, ao lado da porta de entrada, a fazia pensar que talvez outras pessoas, de fé confessa, tenham passado por ali, logo que a casa foi construída. Provavelmente já se foram, pois a casa era visivelmente antiga, embora bem conservada. Mas Cecília sempre pensava que aquele "buraco" na parede era, provavelmente, a herança mais viva de um antigo morador, sua assinatura invisível.
O chão do quintal da frente era de pequenos paralelepípedos. Talvez fossem a continuação da rua, numa época em que o santuário na varanda era suficiente para protejer a casa. Talvez tenham sido pintados com giz por algum menino de calças curtas e suspensório, sob os olhares de reprovação da vizinhança. Para a parte de trás da casa, Cecília preferia não olhar. Visivelmente havia sido construída depois e quase feria as linhas clássicas da fachada. Era como um caixote atrás de um candelabro, quebrando não só o encanto estético, mas principalmente o onírico.
Visivelmente a casa era habitada. Vez ou outra Cecília via água escorrendo sob o portão que separava o candelabro do caixote, e ouvia barulho de vassoura. As violetas no parapeito estavam sempre floridas, e as plantas que emergiam dos respiros no paralelepípedo, bem aparadas e de um verde vibrante. E assim crescia seu encanto. A casa amarela era, sem dúvida, a personagem principal. Seus moradores eram, no máximo, vultos caprichosamente escamoteados sob o teto antigo e as paredes grossas.
Um dia, para sua surpresa, a janela da frente estava escancarada. Por poucos segundos Cecília sentiu quebrada a intimidade silenciosa que estabelecera com a construção. Os dez anos de convivência pareciam voar por aquela janela, e a casa lhe pareceu sólida demais, concreta, palpável. Aos poucos, a sensação de vazio deu lugar à curiosidade. Cecília repousou as sacolas sob o chão, fingindo descansar os braços e olhou para dentro da casa.
Viu estantes de madeira que ocupavam duas paredes do quarto, cheias de livros antigos, e um lustre de cobre com lâmpadas pequenas. De costas, uma senhora de cabelos brancos, presos à nuca em um coque, sentada em uma cadeira confortável, de costas para a janela. O estranhamento se dissipou... e protegida por um arbusto Cecília continuou espiando. E em poucos momentos tudo estava novamente em harmonia. A tal senhora era elegante e discreta, como a casa. Sobre os ombros usava um chale gris, e o coque no cabelo era delicadamente arrematado com uma pequena presilha de metal envelhecido.
Cecília retomou as sacolas e pensou que tudo estava em seu devido lugar. Ergueu-se e deu uma última olhada para a varanda, o santuário vazio, os paralelepídos, como sempre fazia quando passava por ali. Em passos lentos, olhou sobre os ombros, em direção à janela aberta. As estantes, o lustre... e a senhora? A cadeira estava vazia, meio virada para o lado, afastada de uma escrivaninha antiga, bem envernizada. Cecília não resistiu. Deu dois passos para trás para conferir o destino da tal senhora. De fato, não estava mais lá. Nem houve tempo de conhecer mais detalhes... sentiu por não poder incluí-la na intimidade que compartilhava com as portas e janelas estreitas, ou com as violetas sempre floridas.
Mas, antes que pudesse se afastar e continuar seus devaneios sobre a vida da casa amarela e de sua recém-descoberta moradora, um detalhe brilhante e colorido, sobre a escrivaninha de madeira, ofuscou seus pensamentos. Imediatamente Cecília sentiu-se subtraída, arrancada abruptamente de um sonho bom. Perdeu os passos por um instante e não pôde evitar conferir a desagradável descoberta: o encanto se quebrou, como um cristal fino. Sobre a escrivaninha antiga, envolto por livros antigos e pela luz fraca do lustre, havia um computador. Desses de última geração, colorido, super moderno. Um atentado ao bom gosto, à pureza da casa amarela e às suas recordações inventadas. Após dez anos de descobertas e intimidade, o castelo de Cecília desmoronou como rui um castelo de cartas, com um simples sopro de realidade.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O que eu aprendi com meu filme preferido

Gente! Pela primeira vez, neste blog, estou escrevendo com trilha sonora. Normalmente, como já disse antes, um tema, uma palavra, uma inquietação me acomete, e eu, resignada, deixo o pensamento rolar. E se transformar em palavras. Hoje, excepcionalmente, estou escrevendo e ouvindo música ao mesmo tempo.
Para quem está curioso, estou escrevendo imbuída pela trilha sonora do meu filme preferido: Forrest Gump. Quem me conhece sabe que eu já perdi as contas de quantas vezes assisti a este filme. Acho que quando parei de contar (uns oito anos atrás), eu tinha assistido ao filme umas quatorze vezes. Detalhe importante: o filme foi lançado no Brasil em 1995. De lá para cá acho que assisti às minhas cenas preferidas uma centena de vezes... e ao filme inteiro, uma outra centena...
Enfim, acho que vocês não estão entendendo nada, né? Eu também, até hoje não entendo porque esse filme é o meu preferido. Por que me captou de maneira arrebatadora...
Assisti a clássicos, internacionalmete renomados, tão menos comerciais, tão menos óbvios, tão menos Hollywood (embora eu mesma não ache isso um defeito "a priori"). Mas não tem jeito! Confesso, ninguém me conquistou tão sensivelmente quanto o Forrest.
Forrest Gump é só mais uma daquelas centenas de produções bem feitinhas, bem construídas, com alguns efeitos especiais admiráveis (ainda mais para a época), com excelentes atores, e uma trilha sonora que agrada gregos e troianos (gregos e troianos com o mínimo de bom gosto, claro). Bom, deixa eu controlar meu entusiasmo. E minhas impressões absolutamente pessoais!
Não sou uma grande entenderoda de cinema, mas para perceber o questionamento central do filme, ninguém precisa ser. É mais ou menos assim: As coisas acontecem ao acaso, totalmente aleatórias, ou elas acontecem porque existe um destino previamente determinado para cada um de nós? Um script, com começo, meio e fim, movido por uma força divina ou algo que o valha? Boa pergunta, não é?
Acho que esse foi o primeiro apelo do filme - e o mais óbvio - que me conquistou. Todos nós, reles mortais, já pensamos nessa questão. Quantas vezes cada um de nós já não pensou que aquele encontro absolutamente banal tivesse sido movido por uma força-motor extra sensorial, um encontro de fluidos divinos ou um sopro inevitável da natureza? Quero dizer, quantos de nós nunca fantasiou sem censura, sem limites, para justificar os momentos mais improváveis e insólitos? Afinal, como bons mortais, buscamos sempre explicação em algo que nos transcende. Se identificou com isto?
Se você leu o último parágrafo e achou tudo uma besteira, provavelmente você pensa que nada está pré-determinado, iluminado divinamente, envolto em magia. As coisas são o que são simplesmente porque estão no mundo, sujeitas a tudo o que também está aí. Então, é tudo "por vir", e nada é determinado.
Enfim, como já anunciei, esta foi só a primeira questão colocada pelo filme que me captou. Confesso que não tenho resposta para ela. Já me perdi em devaneios sobre "o momento certo" para as coisas acontecerem... Já me flagrei, totalmente racional, questionando o meu papel em circunstâncias aparentemente fortuitas... Ou seja, não tenho resposta para a questão mais óbvia do filme... Acho que às vezes sou o Tenete Dan, outras sou a Mamma (aí vocês vão ter que assistir ao filme para entender).
Mas, mesmo sem assistir ao filme, acho que podemos discutir sobre a questão que eu coloquei acima. Temos um destino determinado (isso é Tenete Dan) ou podemos escrever nosso próprio destino (isso é Mamma)?
Lembram que eu disse antes que essa era a questão mais óbvia do filme? Então, como vocês já devem me conhecer, sabem que eu gosto de entrelinhas, de vírgulas e reticências, mais do que de exclamações. Gosto mais do "dito de outra forma", da metáfora, da poesia que não rima, do sustenido.
Acho que foi aí que o Forrest me conquistou, absolutamente! E agora não falo mais do filme, da produção cinematográfica, mas das personagens. Foi no olhar do menino que pergunta pelo pai, que nunca conheceu, que ele acha que está de férias. E na firmeza da mãe que diz: "Férias, é quando alguém vai a algum lugar e nunca mais volta". Foi na mãe, que tem um filho com limitação física, e que diz para o filho: "Se Deus quisesse que todos fossem iguais, teria feito todos com aparelhos nas pernas". Foi no menino, que mesmo sendo "limítrofe" sempre respondeu a quase tudo com "ok", e com isso foi em frente, sempre. Foi no homem, que se sabendo "limítrofe" disse: "Bubba era meu melhor amigo... e até eu sei que isso não se encontra em qualquer lugar". Foi no homem, que mesmo sendo "limítrofe", soube reconhecer inteligência em seu filho e não dizer que o mundo era diferente dele (do filho). Quando as pessoas que amava ficavam doentes, Forrest colhia flores frescas para por ao lado da cama. E quando ele ficava muito triste ao se lembrar de alguma história, ele tinha a humildade e o respeito próprio de dizer : "e eu não tenho nada mais a falar sobre isso". Forrest correu sem destino por mais de três anos para aprender uma lição que muitos de nós não aprendemos em uma vida inteira: "é preciso deixar o passado para trás". Forrest descobriu, quando criança, que pernas mecânicas eram pernas mágicas. E o mais incrível é que ele não se esqueceu disso depois que cresceu.
Sabem de uma coisa? Pra mim pouco importa se o destino é algo inexorável, ou se todos somos peninhas ao vento (assistam ao filme para entender). O importante é correr, sem destino, mas aprender com isso. O importante é se saber inevitavelmente sozinho, mas se cercar do que as pessoas têm de melhor. É reconhecer o que realmente importa na vida. É perceber que todos somos "limítrofes" em algum sentido, e talvez nisto esteja a graça de sermos quem somos.
Talvez, o melhor seja eu não tentar explicar porque Forrest Gump é meu filme preferido. Se puderem, releiam este post ouvindo à musica que estou ouvindo agora, da trilha do filme: Forrest Gump Suite. Acho que só assim vocês vão entender!


sábado, 3 de julho de 2010

Triste, muito triste

Três de julho de 2010, uma e quatro da manhã. Por mais que eu esteja triste, revoltada, inconformada, acho que nada poderá se comparar ao que eu vou sentir amanhã (que já é hoje) quando eu acordar...
Será uma linda manhã de inverno, sábado, com céu azul, tempo seco e poucas ou nenhuma nuvem no céu. Como todos os sábados, não responderei à ditadura do despertador. E me permitirei dormir mais um pouquinho, displicente, inconsequente... como quem só desperta e espreguiça, bem devagar!
Inevitável, no entanto, será despertar do sonho. Não um sonho banal, com temperos egoístas, individuais... Mas um sonho acalentado há anos, coletivo, de todos nós brasileiros. Um sonho de, pelo menos por instantes, ser primeiro mundo, elite, primeiro lugar...
Certamente, me perguntarei de novo: de quem foi a culpa? Onde erramos? Como assim, de novo, nas quartas de final? De novo derrotados na condição de favoritos absolutos (embora intimamente inseguros, como sempre).
Qual é, afinal, a magia da Copa? Poucas vezes me deparei com meu coração aos solavancos, mesmo aos trinta e poucos anos de idade. Muitas delas, certamente, foi torcendo pela Seleção. Estranhamente sem fôlego, sem razões, e com lágrimas retidas por conta de muito pudor racional.
Pronto, cheguei onde eu queria! Amanhã (que na verdade é daqui a pouco) serei só mais uma brasileira que acordou de um sonho. Patriota incorrigível - confesso -, esperarei pacientemente por 2014, sonhando de vez em quando com um futebol que não existe mais. Aquele de antigamente que empolgava, enchia os olhos... daquele tempo que era difícil saber se era jogo ou dança, se era esporte ou arte. Daquele tempo em que o futebol éramos todos nós, sem exceção.
Contrariando a maioria, que agora certamente elege culpados, rendo minhas graças e elogios a alguns brasileiros de verdade, que honraram nossas cores. Mesmo não fazendo o tal e tão desejado "futebol arte" pintaram, como poucos, o "futebol raça". Acho que neste momento, cada um de nós tem um pouco de Lúcio. E graças a esportistas como ele permanecemos de cabeça erguida, apesar de tanta tristeza.
E é assim, do "jeitinho" brasileiro que esperaremos, resignados porém esperançosos, por 2014. E quem sabe lá, em 2014, sejamos, enfim, Primeiro Mundo (escrito assim, com letras maiúsculas).

Três de julho de 2010, duas e vinte e sete da manhã. Vou dormir agora. E só tenho certeza de uma coisa: vou acordar triste, muito triste!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sonhos

Eu estava pensando: além de algumas funções biológicas básicas, como respirar, por exemplo, sonhar é uma das poucas coisas que fazemos dormindo e acordados. Me arriscaria até a dizer que sonhamos quase o tempo todo. E por que será que é tão bom?
Dormindo, já tive sonhos terríveis, pesadelos daqueles que parecem muito reais. Já acordei chorando, desesperada. Já aconteceu até de eu acordar, voltar a dormir, e o pesadelo continuar. Cenas tão dantescas que quando acabaram definitivamente mereceram um "ufa, era só um sonho". Acordada já sonhei com pessoas perfeitas, paz absoluta e tranquilidade constante. De tão utópicos, quando não se concretizaram me conformei. Afinal "era só um sonho".
Fato é que, dormindo ou acordados, os sonhos são uma pausa no tempo. Uma pausa que podemos dar conscientemente ou no espaço onírico do sonho. Já te aconteceu de, em um sonho durante o sono, resolver um problema que te afligia há dias? Ou brigar com alguém, desabafar uma raiva latente, ou fazer uma declaração de amor que o corre-corre da rotina não permitiu? É quase um choque de realidade compulsório, que nos ajuda a perceber detalhes e importâncias que a luz do dia ou a vigília não nos permitia enxergar.
Quando sonhamos acordados vivemos "entre parênteses" por alguns instantes. A pausa no tempo se dá no espaço de nossas próprias vidas e não raro, refere-se à vida que gostaríamos de ter, mas que, por zilhões de motivos, não conseguimos. Aliás, tão mais gostoso sonhar do que questionar!
Mas não deve ser à toa que existe diferença entre "sonhos" e "projetos", "desejos" e "objetivos". Embora sonhos possam se transformar em projetos (diga-se de passagem me parece salutar que isso aconteça), o lugar reservado aos sonhos deve, por definição, resguardar-se do real, do factível. É um respiro, eu diria até um suspirar profundo, à parte de tropeços, de nãos, de imprevistos. É uma rua tranquila, ladeada por flores do campo, e por casas sem grades, muros e portões.
Para todos esses pensamentos sobre os sonhos, ao contrário do que costuma acontecer em minhas crônicas, acho que não existe uma conclusão final. Só estava pensando mesmo nos sonhos que ando tendo, dormindo e acordada. E em como esses mundos paralelos às vezes nos parecem confortáveis, porque em algum momento acordamos, ou porque são completamente diferentes do nosso mundo real. Acho que falei dos sonhos não só porque é gostoso sonhar, mas também porque, às vezes, é bem difícil acordar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Psicologia?

Esses dias eu estava pensando sobre o quanto é difícil escolher uma profissão. Você tem que pensar muito seriamente sobre suas habilidades e limitações. E, além disso, considerar as dificuldades intrínsecas a cada carreira. No meio desse pensamento, fui surpreendida por lembranças que, alguns anos depois dos fatos, tornaram-se engraçadas.
Lembro-me também que já compartilhei essas lembranças com alguns colegas e todos relataram ter vivido situações semelhantes. Trata-se de frases que você ouve, antes, durante e depois da faculdade, que no momento em que são ditas, nos despertam verdadeira fúria, mas que com o tempo, tornam-se até parte da mítica de qualquer profissão. No meu caso, me formei em psicologia. Compartilho com vocês, agora, alguns desses momentos pitorescos.
De antemão, peço desculpas aos leitores que não são da área, mas tenho certeza que, adaptando-se certas situações, todos já passamos por algo semelhante! E para os da área, advirto, esse texto é uma brincadeira com as delícias e agruras da nossa linda profissão.

Frases que ouvimos antes de entrar na faculdade:
-Do professor do cursinho: Psicologia? Achei que você fosse tentar algo mais difícil!
-Do seu pai: Psicologia? Tem campo pra “isso”?
-Do seu melhor amigo: Cuidado, hein... O tio da amiga da minha vizinha é psiquiatra. Esse povo que mexe com gente doida acaba ficando um pouco doido também!

Logo no começo do curso:
- Dos professores:
De Fundamentos da Psicanálise: A Psicanálise é mais profunda, procura a raiz do problema.
De Introdução à Psicologia Comportamental: A Comportamental é mais efetiva, porque procura a raiz do problema.
De Sociologia: A Sociologia é mais importante, porque questiona a raiz social do problema.
De Estatística: Se eu comi dez frangos, e você nenhum, então comemos cinco frangos em média. Você comeu cinco, sem ter comido nenhum!

-De desconhecidos, na mesa do bar:
O autossuficiente: Não preciso de terapia. Meu terapeuta é meu melhor amigo.
O autocentrado: Psicologia, é? Então tudo que eu disser você vai analisar?

-Da sua tia-avó: A melhor terapia é fazer tricô. Os antigos já falavam...

-Do seu melhor amigo: Preciso da sua opinião; não sua opinião de amigo, mas sua avaliação como psicólogo

No meio de curso, início das disciplinas práticas:
-Dos professores:
De Clínica Psicanalítica: O tempo de uma disciplina é muito curto para a prática psicanalítica. O inconsciente é atemporal, mas precisa de tempo para ser analisado. Portanto, faremos apenas um “detour” pelos principais conceitos freudianos, para que, posteriormente, vocês possam se aprofundar no assunto.
De Clínica Comportamental: O tempo de uma disciplina é insuficiente para a análise funcional. O comportamento é fruto de contingências filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Portanto, faremos um recorte metodológico, com ênfase na ontogênese, para que posteriormente vocês possam se aprofundar no assunto.
De Dinâmica de Grupo 1 (que é obrigatória): Vamos nos sentar em círculo, no centro da sala. E agora cada um vai desenhar e pintar nas folhas de papel espalhadas no chão, um animal com o qual se identifica. Justificar? Não precisa justificar sua escolha, pois não haverá tempo hábil. Oportunamente, na disciplina “Dinâmica de Grupo 2 – estudos avançados” (que é opcional) vocês poderão se aprofundar no assunto.

-De desconhecidos, na mesa do bar:
O curioso: Diz ai, eu sempre tive curiosidade de saber... Por que a gente desenha uma casa, uma árvore e uma pessoa no psicotécnico do Detran?
O informado: Ouvi dizer que tem que desenhar o chão (embaixo da casa, da árvore e da pessoa).
O bicho-grilo: Psicologia? Acho super interessante. Inclusive, pesquiso muito sobre parapsicologia, projeciologia e medicina alternativa oriental.

-Da sua tia-avó: Não se formou ainda, minha filha? Mas tá namorando, né?

-Do seu melhor amigo: Vamos sair pra tomar uma cerveja? Mas sem aquele papo de inconsciente, contingência...

No final do curso:
-Dos supervisores de estágio em clínica:
Psicanalítica: O processo analítico, como o próprio nome diz, é um processo. E, enquanto processo, é inescrutinável. Em um ano de estágio, você provavelmente não poderá vislumbrar as relações intrínsecas à transferência. Mas o estágio é um momento importante para que esse aluno entre em contato com os conflitos inerentes à relação analista-paciente para que, posteriormente, em sua análise pessoal, possa lidar com essa angústia.
Comportamental: Nesse espaço de um ano, vamos procurar levantar todas as contingências possíveis, relacionadas ao comportamento do cliente. Com base nas contingências estabelecedoras e nas mantenedoras do chamado “comportamento-alvo”, vamos planejar a intervenção. Se der tempo, entramos com o plano de intervenção. Se não, elaboraremos um relatório detalhado das sessões, para que o estagiário do próximo ano dê continuidade aos procedimentos.

-Na escola onde você faz estágio em Psicologia escolar:
Da diretora: Mas cadê a mocinha que vinha ano passado? Ela era tão boazinha...
Da professora: Posso falar com você em particular? Então, sabe aquele menininho ali? O gordinho... ele tem problemas em casa. Será que você não poderia dar uma atençãozinha especial pra ele, tadinho?

-Na empresa onde você faz estágio em Psicologia Organizacional:
Do diretor da empresa: aqui estão os perfis. Qualquer dúvida, pergunte ao administrador.
Do administrador: recebeu os perfis? Qualquer dúvida, pergunte à minha secretária.
Da secretária: você precisa trazer os formulários da universidade, com urgência, para regularizar sua situação como estagiário aqui da empresa! Qualquer dúvida procure o jurídico.

-Do desconhecido, na mesa do bar: a essa altura, você não tem mais tempo nem paciência para ouvir desconhecidos. Nem para frequentar bares!

-Da sua tia-avó: vai se formar, já? Então agora já pode casar, hein?Ah, terminou? Que pena... vou tricotar uma manta pra Santo Antônio... logo logo você arruma outro!

-Do seu melhor amigo, depois que você conta sobre as suas frustações no último ano de curso, sobre as críticas da família à sua escolha profissional e sobre o pé na bunda que você levou do seu namorado (a) que reclamou o ano inteiro que você não tinha mais tempo pra ele (a): cara, na boa, acho que você deveria fazer terapia.

Ouço coisas engraçadas até hoje, passados mais de dez anos da formatura. Mas essa parte, fica pra outra vez...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Bom Dia, Boa Tarde!

Tem uma senhora que mora em uma casa antiga, próxima ao prédio onde moro. Sempre a encontro, desde que mudei pra cá, há dez anos. Geralmente ela está levando o lixo pra calçada, despedindo-se de alguém no portão, ou limpando a janela da frente. Eu, geralmente, estou indo ao supermercado ou à banca de revistas. Ou voltando de alguma loja do centro da cidade que fica, praticamente, no pátio do meu prédio e no quintal da tal senhora.
De uns anos pra cá, mesmo sem termos sido formalmente apresentadas, começamos a nos cumprimentar. Depois de anos de encontros (não nossos, mas de nossos cotidianos), um dia, não me recordo exatamente há quanto tempo, sorrimos uma para outra e dissemos “bom dia” – talvez tenha sido “boa tarde”. Provavelmente deve ter sido um dia em que ela abaixou a mangueira, com a qual lavava a calçada, para eu poder passar sem que os respingos d’água molhassem meus pés. Pode ter sido também num fim de tarde, quando quase nos esbarramos enquanto ela deixava o lixo na calçada e eu lia, andando, a sinopse de Casablanca na contracapa do dvd... Mero acaso, distração!
Hoje, voltando apressada do centro da cidade, passei em frente à casa de cabeça baixa, absorta por preocupações rotineiras e planos para o fim de semana. Saí desse “transe” alienante com um “bom dia”, cuja direção não identifiquei de pronto. Por reflexo, ou força do hábito, olhei em direção ao portão aberto e ela não estava lá. Procurei, talvez por milésimos de segundos, minha amiga desconhecida e a encontrei atravessando a rua e olhando para trás, à espera da retribuição do cumprimento. Vendo que eu estava “perdida” ela riu, discretamente. Eu também ri, um riso surpreso e meio tímido, e disse “bom dia”.
Inexplicáveis essas sensações sutis e desavisadas que surgem de situações singelas do dia-a-dia, né? Senti uma palpitaçãozinha quase inaudível, e, não sei por que, continuei sorrindo até chegar em casa. O que em minha amiga de calçada me captou? Por que, só depois do “bom dia”, olhei para frente, e para cima, e vi que depois de uma manhã nublada e gelada o sol surgia forte e as nuvens se afastavam?
De alguma forma, essa querida desconhecida fez diferença no meu dia. Não por ter feito ou dito algo extraordinário. Ao contrário,apenas cumprimos nosso protocolo tácito e mantivemos a assim chamada “política da boa vizinhança”. Hoje, talvez, eu estivesse especialmente sensível, ou preocupada, ou apressada. E o “bom dia”, acompanhado do riso discreto, tenha me reconfortado, acarinhado, por assim dizer.
Só agora, contando a história e revendo minhas reações, consigo perceber que essa vizinha passou a fazer parte da minha vida. E que talvez, em muitas outras situações, eu a tenha feito sorrir também, depois do meu “boa tarde”. Parece haver entre nós um tipo de intimidade absolutamente particular, conquistada com anos de calçada, muitos “bons dias”, e alguns sorrisos ocasionais. Nos tornamos próximas, sem nunca termos trocado mais do que duas palavras. E sei que sentirei sua falta um dia, quando eu estiver em outra vizinhança.
Ah, e de hoje em diante, vou dizer mais “bons dias”, andar menos de cabeça baixa e sorrir mais para esses amigos desconhecidos ocasionais.
A todos os meus leitores, uma boa tarde! Recebam, em suas casas, o meu sorriso!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Anjinhos

Escrevo hoje totalmente tomada de susto. E, já de início, as lágrimas me são inevitáveis. Aliás, como não poderia deixar de ser diante da notícia de que dois novos anjinhos estão agora no lugar reservado ao que existe de mais puro e inocente no mundo.
Imagino que, lá de cima, eles estejam acompanhando o sofrimento de seus pais, que aguardaram com tanto carinho a sua chegada e que foram privados tão cedo de sua companhia! Não deve estar sendo fácil para eles presenciar tudo isso. E é tão difícil, para nós, encontrar algum sentido que nos conforte; um porquê, que seja, para essa aparente brutalidade da vida. A morte sempre nos será estranha, é fato. Mas em algumas situações, como esta a que me refiro, além de estranha ela parece injusta!
Mas prefiro pensar que tudo que é belo necessita de um toque de vida especial. E tenho certeza que são os anjinhos que se encarregam disso. Lá de cima, eles apontam para as flores que nascem, e então elas brilham, voltando nossos olhos para a renovação da vida. Acho também que são eles que dão um empurrãozinho nas estrelas cadentes, para que elas alimentem nossos pedidos de felicidade. Aquela brisinha refrescante, no meio da tarde, é o sopro dos anjinhos, nos acalentando e renovando a coragem para continuar a caminhada.
Quando criança, eu sempre rezava pro meu anjo da guarda: “Santo anjo do Senhor, meu zeloso e guardador...”. Mal sabia, naquela época, que os anjinhos eram crianças como eu, mas que tiveram o privilégio de ser escolhidas para viver em outro lugar, ao lado da luz, da fé, da tranquilidade, da paz. São crianças especiais, esses anjinhos, que abriram mão da vida aqui na Terra pra proteger outras crianças. E pra manter viva a criança que cada um de nós carrega no coração, quando nos lambuzamos de propósito com manga, quando choramos de saudades da mamãe, quando andamos mais devagar pra pegar chuva, quando fechamos os olhos na montanha russa... em cada um desses momentos, um anjinho se aproxima, nos acalenta e afaga nossos cabelos. E só assim, fechamos os olhos e dormimos em paz.
Hoje, a minha oração será especial. Para que meu anjo da guarda direcione seu sopro de conforto para uma grande amiga e seu marido, que recentemente passaram pela dor indescritível de perder o pedaço mais importante de suas próprias vidas. E também para que ele (o meu anjo) receba esses dois novos anjinhos e os cubra de atenção e carinho. E os ensine a iluminar flores e escolher lindas estrelas para lançar à Terra... Hoje, quando todos que torcemos pela vida deles fecharmos os olhos cansados e repousarmos, tenho certeza que eles se aproximarão e nos sussurrarão lindos sonhos e bons sentimentos. E assim eles continuarão, para sempre, nos regendo, guardando e iluminando, como dizia o fim daquela oração. Amém!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Conquistas

Um mês sem escrever aqui. Antes de mais nada, me desculpem pela ausência... nem eu sei explicar porque às vezes as palavras me somem sem aviso, se um dos meus grandes prazeres é dividir com vocês minhas observações do cotidiano... Enfim, talvez sejam os tão falados mistérios que residem entre o céu e a terra... Sei lá!
Mas vamos ao que interessa.
Hoje quero falar de conquistas. Acho que as primeiras conquistas de que ouvimos falar são aquelas das aulas de História do ensino fundamental. A “Conquista das Índias”, a “Conquista da Lua”, a “Conquista do Novo Mundo”. Reparem, todas escritas com letras maiúsculas, mas que,olhando assim de fora, parece que aconteceram da noite para o dia. De repente, alguém que não tinha mais nada o que fazer, resolveu atravessar o Cabo da Boa Esperança, ou vestir uma roupa engraçada e se lançar no espaço para encontrar “de susto” o satélite natural da Terra. Ou, ainda, rumar em direção ao horizonte (diga-se de passagem, procurando as tão sonhadas Índias) e descobrir a América!
Parece bobo falar assim, não é? Todos sabemos o quanto a humanidade teve que caminhar para chegar a alguns lugares, desvendar alguns mistérios (até então “sobrenaturais” como os monstros que habitavam o sul da África) e, principalmente, saber-se capaz de superar alguns limites. Mas nossa mente, muitas vezes “econômica”, só vislumbra o resultado final.
Já pararam pra pensar o que representa cada uma das conquistas do nosso dia-a-dia? Pensem bem: se nós, na nossa condição “econômica” de seres humanos tendemos a resumir aquelas grandes conquistas que acabei de citar, imaginem só o quanto menosprezamos as conquistas instantâneas de cada indivíduo, em sua condição absolutamente nuclear! Nossa, dá até medo de pensar!
Um casal feliz, por exemplo. Certamente tropeçou nas idiossincrasias irritantes de cada um. Ambos em algum momento engoliram seco, respiraram fundo e deram um passo a frente, em busca da escultura que abrangesse, sem maiores conflitos, a totalidade de cada um.
E vencer os medos, então? Todos nós temos medo de alguma coisa, ou situação. Dos mais diversos e inesperados, aos mais comuns e compreensíveis. Na lista dos esperados (ao menos ao meu ver): ficar sozinho, ficar doente, ter dores impossíveis de amenizar, barata, violência. Os inesperados: borboleta, escuro, tempestade, medo de ter medo, e assim por diante. Pensem bem: todos os dias, em todos os cantos do mundo, milhares de pessoas vencem pelo menos um de seus medos, após uma grande caminhada de superação invisível aos olhos da maioria. Um pequeno passo pra humanidade, mas um grande passo individual! (Desculpem, eu não poderia perder esse trocadilho como Niel Armstrong).
Recentemente, presenciei uma dessas conquistas. Acompanhei passo a passo a evolução de um trabalho sério, bem orientado, criterioso, que culminou em uma tese de Doutorado. Ao contrário do que costuma acontecer com o que observamos de longe, vi o quanto é difícil superar limites e medos, engolir sapos, ter paciência, desvendar o desconhecido. Tudo isso sem alarde. Muitas vezes até com descrédito.
Tive o privilégio de acompanhar esse processo, do garimpo à lapidação, com expectativa, ainda, de evoluir para uma requintada joia. Acreditem: foi uma experiência - a minha, de olhar uma conquista de perto - inigualável. Aprendi que quando valorizamos o passo-a-passo do que quer que seja, nos tornamos parte do resultado final. Deixamos de ser meros expectadores e, mesmo calados, somos potenciais narradores de grandes histórias, ainda que momentaneamente individuais. Talvez assim o universo monocromático e particular do indivíduo componha, com louvor reconhecido, o mosaico multicolorido universal.
Esta crônica é dedicada, com todo meu amor e admiração, ao Dr. Gustavo Rodrigues de Souza.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Amor Novo

Perfil do Orkut: “Quem sou eu”. Pergunta difícil... até hoje, com trinta e poucos. Dia desses, fuçando aquela minha pasta do computador que eu já citei antes, e que burramente (reafirmo) nomeei de “bobagens”, revi coisas que escrevi tempos atrás. Uma dessas coisas era o meu primeiro “quem sou eu” do Orkut, e lá pelo meio do texto eu escrevi que “não gosto quando grandes amores acabam”.
É triste mesmo. Principalmente quando acompanhamos uma grande história de amor desde o começo. Ela começa, cresce frondosa. Faz sombra, dá flores e frutos. Histórias, músicas,momentos e declarações. Um dia, meio que sem aviso formal, mas com alertas sutis cotidianos,ela amorna, desidrata, vislumbra o chão. E tão sorrateira quanto chegou, ela arrefece finalmente; depois de vários últimos suspiros, murcha e morre. Como uma flor, ceifada por falta de cor, de ritmo, de dança, de brilho, de palavras. Ou simplesmente por falta de ar.
Mas acho que não é sobre isso que eu quero falar hoje. Me permitam assumir meu (quase) constante otimismo e falar, ainda que brevemente, sobre amores que começam. Amores aurora, frescos, recém-chegados, inaugurados por acaso. Talvez sejam indescritíveis, esses “amores-bebês”, que surgem de um desdém aparente, um olhar desatento sobre os ombros. Já ouvi falar de amores que nasceram em filas de banco, em sobretudos e cabelos longos, em portões sob os olhares desconfiados da vizinhança. Amores à primeira vista. Amores que esperaram pacientemente as idas e vindas de corações indecisos. Amores que curaram sentimentos desfalecidos, desesperançosos. Ou que pegaram carona em uma felicidade muito muito grande que, definitiva e inadiavelmente, merecia um grande amor.
Acho que essa é a grande poesia do novo amor. Não há roteiro. Tampouco certos e errados, e muitos outros julgamentos de valor. Ele só existe, incólume a passados, histórias e dores. Parece até que só veio para acelerar o coração, adormecer as pernas e soltar o sorriso. E faz isso muito bem, não é? Os olhos brilham como nunca e, ainda que o mundo gire e as flores murchem como sempre, é tudo em “slow motion”. Mas com cores de Almodóvar, formas de Frida Kahlo e acordes de Tropicália.
Para onde caminham? Impossível dizer. São amores iminentes, com a prerrogativa inquestionável do novo, do desconhecido, e principalmente do “descobrir”. São cristais, é fato. E portanto carregam consigo brilho e ambigüidade; transparência e fragilidade. São frescos como banho de chuva no verão, gostosos como brigadeiro de colher. Mas também apavorantes como montanha russa, assustadores como filmes de terror tailandeses.
Então, não para definir (já que não é possível e nem é minha pretensão) mas para desenhar em linhas pontilhadas: Amor novo é encanto e mistério. Como tudo que é novo, é euforia. Como tudo que é desconhecido, é desafio!

terça-feira, 2 de março de 2010

Mulher

Tem uma música de que gosto muito que diz que “toda mulher gosta de rosas, rosas, de rosas”. Sempre achei perigosas as generalizações, ainda mais quando se aplicam a seres humanos, mais ainda sobre mulheres. Ainda assim, gosto muito da música.
Pensando na música, imaginei se seria possível dizer algumas coisas sobre as mulheres, ainda que não sejam definitivas, como de fato não poderiam ser. Pensei não só em coisas que parecem óbvias e que já foram exaustivamente expostas em ditos populares e crônicas que circulam na internet, mas principalmente em sutilezas, que permeiam estrofes de músicas e poemas. Me surpreendi ao perceber que, diante de uma vida inteira, às vezes é só um segundo que descreve uma mulher.
É aquele instante entre a aproximação dos rostos e o primeiro beijo. A cabeça se inclina levemente para o lado, os olhos se fecham, o vento bate nos cabelos, e surge a porção mais feminina. Que abraça, afaga, aparentemente calma. Mas por dentro, é só coração aos solavancos. Como explode por dentro a mulher!
Na manhã seguinte a um mar de lágrimas e despedidas, aquele pequeno instante entre o sono e a vigília em que tudo o que se passou parece tão irreal. E a mulher se lembra de tudo de novo e chora. Só que agora chora quietinha, sem caretas, apenas deixando aquela última lágrima lhe correr pelo rosto. É elegante a lágrima da mulher!
Vestido novo, noite de sábado, ocasião importante. Tudo tem que estar perfeito. O sapato da moda, acessórios discretos, e um sorriso reluzente nos lábios. No meio da noite, escondida no banheiro do restaurante, ela tira os sapatos, massageia os dedos dos pés, e suspira um “ai” profundo, de dor e arrependimento. E ressurge, mais mulher do que nunca, como se tivesse nascido a bordo de um salto quinze. Sempre quer ser mais mulher, como se fosse possível!
E o que dizer daquele segundinho de inveja por algo tão insignificante que não mereceria, normalmente, uma piscadela de atenção? O olhar lacerante, meio de canto de olho, o sorriso aguado, e o desdém que a denuncia em sua porção mais difícil de admitir em ser mulher. Ah, a boa e velha insegurança feminina... Ainda que passageira, como o suspiro da dor do salto quinze. Como é frágil o ego da mulher!
E por aí vai! Quer conhecer uma mulher? Procure nas entrelinhas das atitudes as contradições das palavras; o “sim” disfarçado de “tanto faz”, o “me abrace forte” travestido em cabeça baixa. Não a defina apenas por suas forças e fraquezas mais marcantes, mas pelos segundinhos de hesitação entre o sorriso e a lágrima, pelo olhar momentâneo de dúvida. Não se esqueça que sempre haverá mistérios indizíveis, e que às vezes, ela criará palavras para tentar, desesperadamente, se fazer entender.
Depois de tudo isso, não duvide, rosas serão bem vindas. Mas não se esqueça de ler, nas entrelinhas, orquídeas, gérberas, lírios, violetas...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O "Não-Amor"

Recentemente temos sido bombardeados por notícias de pessoas que dizem matar “por amor”. Ouvindo os depoimentos, muitas vezes com ares dramáticos, dos tais matadores, dá a impressão de que o dito amor transbordou. É como se todo o resto dessas pessoas, seus valores, bom senso, senso de justiça e do moralmente aceito, tivesse se diluído e sido engolido por esse sentimento que algumas pessoas insistem em chamar de amor.
Talvez o amor seja um dos sentimentos mais difíceis de se definir. Não só porque parece ser o mais nobre dos atributos humanos, mas principalmente porque, ao que parece, se manifesta das mais diversas e plurais formas. Amor de mãe, amor de irmão, amor de amigo... todos diferentes, mas com algo de mágico ou transcendental que os faz ter o mesmo nome e trazer sensações semelhantes: aconchego, companheirismo, dedicação. Dificilmente conseguiríamos defini-lo de modo definitivo, nem é minha pretensão fazê-lo. Mas, com o mínimo de bom senso, é perfeitamente possível dizer o que NÃO é amor, e a que muitas vezes, por comodismo ou incapacidade de autocrítica, atribuímos nossas atitudes mais atrozes.
Amar não é possuir. O sentimento de posse, tão comum e aceitável hoje em dia, em tempos de consumismo total, foi sendo transferido, sem que nos déssemos conta, das coisas para as pessoas. Esse sentimento, aparentemente inofensivo, e às vezes até valorizado demais, despesonifica, aprisiona, “coisifica”. Não acho que se aplique, então, ao amor.
Amar não é agredir. Esse papo de que o amor é a outra face do ódio, na minha opinião é balela pura. Quem ama não desfigura, não causa dor, não tira sangue. O ódio não é o extremo do amor, mas sua negação em essência, por definição.
Amar não é limitar. O pensamento de que quando se ama dois se tornam um tem alimentado, inadvertidamente, a perigosa armadilha de tolher o que o ser humano tem de mais fascinante, sua individualidade, suas peculiaridades. Tornar-se metade de um é abrir mão dos “senãos” e porquês de cada um. Uma relação simbiótica, em que um não se define sem o outro não deixa espaço para crescimento, já que crescemos questionando sempre.
Sei que corro o risco de estar “chovendo no molhado”. As afirmações parecem óbvias, mas pensem bem: quantas vezes justificamos nosso ciúme, nossa raiva, nossa vontade de esconder o outro do mundo, dizendo que foi por amor? Todos nós já fizemos isso, pelo menos uma vez na vida. Sei que o caso dos “matadores por amor” é extremo, mas já pensaram que às vezes, ainda que inconscientemente, matamos o sonho do outro por medo de que ele cresça muito e nos deixe para trás? E matar os sonhos é aniquilar aos pouquinhos, despersonificar até o ponto em que o outro deixa de existir, como se tivesse mesmo morrido.
Sutilezas como essa me levam a pensar que talvez nunca seja demais relembrar o que não é amar. Não por simples exercício retórico, mas principalmente pela busca de autoconhecimento, pela difícil tarefa de conhecer e assumir nossas fraquezas e buscar sentimentos que nos fortaleçam, para que assim, aqueles a quem dizemos ou queremos amar possam crescer também. Quem sabe, quando descobrirmos tudo o que é não-amor, estejamos prontos para amar de verdade, e fazer do amor a justificativa para a vida, e não para a morte.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Adjetivo: AMIGO

Indubitavelmente a moeda tem dois lados: “cara” e “coroa”. Inquestionavelmente, há pessoas “boas” e pessoas “más”, assim como existem profissionais “competentes” e profissionais “incompetentes”. Simples assim: ou “é” ou definitivamente “não é”. Grosso modo, parece que o mundo está polarizado. E acho que, pensando logicamente, talvez esteja mesmo. Não é?
Pessoalmente sempre lutei contra esse tipo de raciocínio maniqueísta. Há nuances e tons indecifráveis em qualquer situação real com a qual nos deparemos. Nenhum ser humano é completamente bom. Ninguém é tão bom que não possa melhorar (chavão, admito!). E o que dizer daqueles que, por piores que nos pareçam, são o melhor que puderam ser, consideradas as devidas circunstâncias (ou contingências, como diriam meus queridos behavioristas).
Mantendo meu tom relativista mas assumindo um lado totalmente radical, há “amigos” e “amigos”. Relativo porque, em linhas gerais, todos são amigos, tolerantes e sinceros, guardadas as devidas proporções. Voltando ao meu absolutismo utópico e completamente radical, ou se é amigo, ou não. Ponto! E defendo isso, com unhas e dentes afiados, a partir daqui.
Alguns adjetivos de nossa linguagem – e consequentemente de nosso cotidiano – não admitem meio termo. Ou se é honesto ou as notas preencherão nossas meias; não existe alguém “meio” cortês, “parcialmente” leal ou “circunstancialmente” engajado. Pois bem, o substantivo “amigo” para mim, é um desses adjetivos. Como eu já disse, ou é, ou não é.
De tantas pessoas que conheço, poucas – eu até diria pouquíssimas – são merecedoras do adjetivo “amigo”. Porque ser amigo é muito mais complexo do que parece. Para mim e, destaco, isso é absolutamente pessoal, “amigo” é palavra perene. É aquele que se faz presente, independente de nossa vontade, como uma quase imposição. Não por força, mas por necessidade natural, por definição. É aquele que temos vontade de mandar uma mensagem no celular de madrugada só pra dizer: “a noite foi massa, faltou você”.
Pronto, achei o que eu queria dizer: amigo é aquele que está presente o tempo todo, ainda que esteja do outro lado do mundo (geográfico). Que merece aquela lágrima mais resistente e o sorriso espontâneo que, se fosse de outro jeito, não existiria. São essas pessoas adjetivadas por “amigo” que dão graça e sentido a todas as nossas histórias. Que não nos levantam, tão pouco nos derrubam, apenas nos dão as mãos (as duas) e se sentam ao nosso lado quando preciso...
Enfim, acho que nessa história de “amigos” sou mesmo radical! Não tenho amigos “guardadas as devidas proporções”. Esses são colegas, conhecidos, coisas do tipo... Amigos, de verdade, e por definição, são mais do que “uma parte da gente”, são a parte da gente que vale a pena contar. E sempre repetir.Ponto final!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Feliz Aniversário

Conheço algumas (várias) pessoas que não gostam de fazer aniversário. Até aí, normal. Vamos combinar: envelhecer não é a coisa mais agradável do mundo. Os anos vão passando e paulatinamente algumas partes do corpo passam a não responder e, pior, a não obedecer mais aos nossos comandos. Temos sono em momentos que gostaríamos de estar absolutamente “ligados”, as dores vão surgindo e se incorporando ao dia-a-dia. Cada vez mais temos histórias do passado, de um passado beeeeem remoto, de vinte, trinta anos atrás. E, o pior, a maior preocupação da segunda-feira não é tão somente a prova de matemática, com as temidas “operações de segundo grau”, mas a inquietação de todo um futuro que, apesar de mais curto, tornou-se, ano a ano, mais pesado.
Mas, tirando essas coisas absolutamente racionais, é muito bom fazer aniversário. Talvez nem tanto para o aniversariante, mas certamente para aqueles que o amam. Quando somos convidados a compartilhar com alguém, anualmente, do dia mais individual do seu ano, não só nos sentimos privilegiados (pela consideração) como nos sentimos parte da história do tal fulano aniversariante. Celebramos juntos essa incrível idiossincrasia da natureza que faz com que cada um seja absolutamente único, e que tenha, entre tapinhas no bumbum e cortes de cordões umbilicais, começado a escrever sua história, recheada de trilhas sonoras e imagens em branco e preto, estáticas e em movimento.
Agora, mergulhando de vez no emocional e “egoísta”, todo mundo adora holofotes. E o dia do seu aniversário é o dia em que todos os holofotes que você conhece estão direcionados ao seu olhar, ao seu sorriso, ao seu suspiro, às suas vontades. Ai, que delícia!
Para incorrer em um chavão, “os aniversários servem para celebrar a vida”. Para sair do lugar comum e colorir com algodão doce essa história toda, aniversário é aquele momento em que você é a estrela d’alva, a pérola viva, a estrela do mar... O seu aniversário é o momento em que a platéia aplaude, em pé, tudo o que você é. E você, solene e garboso, abre os braços, inclina a cabeça e orgulhoso diz: Muito, muito obrigado!
Dedico aos meus queridíssimos amigos, aniversariantes de janeiro: Adriano e Karen. E especialmente ao meu amor de todos os meses, e de todos esses anos, Barba.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Inspiração (crônica incidental)

Cada vez mais admiro aqueles compositores que dizem em entrevistas que compõem todos dias de manhã, depois de levar os filhos à escola ou de caminhar na esteira por quarenta minutos. Sei que não é regra, que boa parte dos compositores e escritores brasileiros esculpiram suas obras de arte em momentos inusitados: na penumbra do boteco, cercados por garçons impacientes e cadeiras suspensas sobre as mesas; assistindo ao pôr do sol numa praia paradisíaca, acompanhados da dor lacerante do amor perdido. Certamente ambientes inspiradores!
Só agora, me aventurando no mundo das palavras é que parei para pensar sobre isso: afinal, de onde vem a inspiração? Como alcançar esse sopro de luz que oxigena as palavras e as transforma, de um emaranhado indissociável de letras, em uma mensagem que transcende os limites do papel (ou da tela) e invade o universo particular do leitor?
Escrever é apoderar-se das palavras, lapidá-las, refiná-las? É reorganizar ideias soltas numa trama tecida pela técnica? É ressignificar frases numa tentativa de tornar dizível o pensamento? E para meu desespero, essas perguntas me vêm num momento de absoluta ausência de inspiração, daquela força espectral que magicamente ordena os pensamentos e os transforma em borboletas, ou em bolhas de sabão. E agora?
Agora me resta manter as interrogações. Expor entre parênteses meu processo tão particular e inusitado de brincar com o léxico e a realidade, de misturar técnica e mística, de fazer de minha escrita minha história lírica e pessoal.
(no começo é só uma palavra, quando não um sentimento sem nome. Se der sorte, é uma situação completa, com começo meio e fim. O que é constante é a inquietação palpitante, insone, que invade, abrupta e incessante, tudo o que diz respeito a mim. Infiltra, profundo, mas não tarde reverbera, explode. Nesse momento sou só palpitações, sons, busca, um transe consciente e eufórico, quase ensurdecedor. Até que elas chegam, as palavras! Inicialmente saltitantes e tão eufóricas quanto eu. Confundindo meus olhos e entrecortando minha respiração. E enfim me dominam, me acalmam, me reorganizam. E só então emerge escrito, placidamente, como se fosse absolutamente natural e fluido, o pedaço de mundo que me elegeu. E que me transformou novamente em palavras, pontos, vírgulas, e eternas interrogações)